Amor

            – Eu tenho medo de te perder.

            E seu olhar pousou em mim, e seus olhos eram de súplica; tão profunda que chegou a me fazer duvidar e pensar em desistir daquilo que eu devia fazer. Já havia visto tal súplica antes, em outros olhos. Mas eram os olhos de minha mãe, olhos de quem sofre calada e consciente de que nada pode mudar no destino de quem pôs no mundo. Um olhar resignado, de quem já esperava por essa provação. Olhar de mãe. Mas os dela, eram olhos de mulher, olhos de esposa, olhos de quem possui e é possuída, e de quem exige esse direito.

            – Tu não vais me perder, sabes disso.

            – Não sei, meu coração nada sabe… Tenho medo. E se der tudo errado?

            Seus braços: seria tão mais fácil permanecer neles, em sua proteção feminina, com seus carinhos e seu toque. O que mais importa?

            – Não dará. Foi para isso que nasci, e para isso fui educado e treinado, desde então. Tenho que cumprir minha missão, a missão que me foi designada.

            – Racionalmente, penso assim. Mas no fundo do meu peito grito para que fiques, para que esqueçamos tudo, para vivermos nossa vida longe daqui.

            Seus lábios: tão doces, tão suaves, tão diferentes de toda a dor e sofrimento que eu teria que suportar em pouco tempo. Resistir o que outros homens não resistiriam, permanecer mortificado. E sofrer, sofrer e suportar. Mas para isso eu havia me preparado por toda a minha vida.

            – Mais um pouco, e tudo estará consumado. E então teremos a vida inteira para vivermos. Juntos.

            Juntos e sem segredo algum, longe daqui. Nosso amor sempre teve de ser silenciado e secreto, algo que estava fora dos planos, mas que, meu Deus, era algo sem o qual eu já não podia viver, muito menos continuar com tudo aquilo. Esse amor era o que me dava mais força nos momentos de dúvida e por ele, apesar da súplica em seus olhos, eu continuaria com o que devia ser feito, com toda a humilhação que eu deveria passar, com toda a dor que seria infligida a mim e a meus familiares, a meus amigos, que me veriam ser preso, julgado, condenado, espancado, humilhado e, finalmente, morto. Pelo menos aos olhos do mundo.

            Mas naquele momento esqueci de todo o resto, de toda a humanidade a qual eu devia servir, e fizemos amor. Inexplicável. Indescritível. E eu nada podia falar sobre isso aos outros. Um homem santo não deve ter necessidades fisiológicas, assim deve ser. E, no entanto, era muito mais que isso, não era a carne, mas o espírito, a alma, a pureza, o amor. Quem era eu para falar de amor antes de conhecê-la?

            E, mesmo assim, eu não podia falar desse amor a ninguém.

            Momentos depois do fim jazíamos os dois, lado a lado, juntos, um só. O silêncio foi quebrado com uma pergunta:

            – Prometes que voltas para mim?

            – Prometo que, quando eu voltar, tu serás a primeira pessoa a me ver.