Para salvar uma alma perdida

Então é isso! Agora tudo faz sentido em minha cabeça. Como minha amada, ao meu lado há quase um ano, poderia ter me abandonado assim, de uma hora para outra, e esquecido todas as nossas juras de amor? Como? Mas agora tudo está explicado! Ela não queria me dizer, negou que houvesse outro homem, disse que só queria um tempo para ela… Eu sabia que tinha algo mais nisso tudo, e decidi segui-la. Ai de mim, que não pensei nisso antes! Talvez pudesse ter evitado a desgraça! Mas ainda há tempo, sim, ainda há tempo para salvá-la.

Preciso lembrar, preciso organizar todos os fatos na minha mente. Segui minha adorada quando ela saiu de casa uma noite e vi quando ela se encontrou com um homem mais velho, uns trinta anos, no escuro de uma praça. Ele era branco, pálido, de longos cabelos pendendo em cachos, olhos fundos e negros. Primeiro, o ciúme me queimou de forma quase incontrolável, mas graças a Deus resisti a tomar uma atitude precipitada. Teria sido meu fim, e estaria tudo consumado. Ficando calmo, mas cheio de dor, pude vê-lo beijar a boca que eu tanto venero. Os movimentos dela me mostravam que havia algo errado, meu amor se postava quase que jogada em seus braços, como que solta e entregue sem vontade a ele. O que aconteceu então eu mal posso recordar sem estremecer! Ainda me dói rever a cena em minhas lembranças! Vi quando ele levantou seu rosto, abriu sua boca infernal e cravou seus longos caninos no lindo pescoço daquela que amo. Ela mal soltou um gemido, e ele continuou, sugando seu sangue.

Gelei de medo, de ódio, de nojo. Quis reagir, mas era impossível. Jamais pensei encontrar tamanho monstro, e não estava preparado no momento. Mas agora, agora vai ser diferente. Vou evitar que ele termine o que começou, vou livrar minha querida da maldição desse verme sanguessuga. Agora compreendo a distância que foi se impondo entre nós dois, a frieza que crescia… Amávamo-nos tanto, ainda nos amamos, ela ainda me ama embaixo do feitiço dessa coisa que nos separou.

Continuei seguindo os dois e descobri a casa que o nosferatu está usando como covil. Preciso pensar exatamente o que farei. Já sei onde devo atacá-lo, só preciso decidir como. Obviamente, o que vi foi a segunda ou a terceira mordida. Se foi a terceira, ela já é uma vampira como ele. De qualquer forma, ela já está sob seu domínio e só há um jeito de libertá-la: reduzir o amaldiçoado a pó.

***

Já tenho o plano exato: seguirei mais uma vez meu amor, mas dessa vez irei preparado. Prendi, na ponta de um bastão, um crucifixo do tamanho de um palmo. Essa será minha arma contra o maligno. Assim que ela chegar à casa dele (ou, caso se encontrem em algum outro lugar, quando ambos chegarem lá), eu os atacarei. Tenho que ser preciso, e acertar os dois rapidamente. Com a força da divina cruz, tenho certeza que ficarão inconscientes. Muito vai me doer ferir meu próprio amor, mas é necessário, visto que no momento ela não passa de um zumbi seguindo ordens de seu mestre. Então eu os levarei para o interior da casa, onde terminarei meu odioso trabalho: enfiarei uma estaca no coração do vampiro e cortarei sua cabeça.

***

Minha… Minha cabeça dói… Que lugar é esse onde me encontro? Deus, terei eu falhado em minha missão? Pareço estar em alguma cela, mas minha visão ainda se encontra turva, minha mente confusa… Preciso recordar o que houve, desde o início… Sim, sim, tudo foi como planejado! Acertei com minha arma primeiro ele, que era o maior perigo, e então ela, que não teve tempo de esboçar qualquer reação. Entrei com os dois antes que chamasse a atenção de algum vizinho ou transeunte. O cheiro daquele desgraçado era fétido, cheiro de coisa morta, apodrecida, e ainda assim vivo. Coloquei-o no chão da sala, onde havia espaço o suficiente. Eu precisava ser rápido, e fui! Com minha mão esquerda, posicionei a estaca em seu peito, exatamente sobre o coração. Levantei o martelo com minha mão direita e desferi o golpe com toda minha força. A estaca entrou-lhe quase toda, enquanto ele esbugalhava os olhos e tinha um espasmo nas pernas e braços. A um leigo ele poderia ter enganado, mas não a mim. Ainda não estava acabado. Pedi ajuda a Deus para a pior parte. Fechei os olhos enquanto levantava o facão e orava pedindo piedade para a pobre alma daquele infeliz. Desci de novo os braços com toda a força, mas, ai de mim, não foi suficiente. O sangue jorrava pelo chão, mas a lâmina havia parado na sua coluna. Minha vontade era vomitar, e quase desmaiei, mas eu precisava terminar ou de nada adiantaria. Continuei forçando e serrando até encaixar o metal entre as vértebras e partir sua medula, chegando até o chão. A cabeça pendeu para um lado, inanimada, e o líquido rubro passou a espirrar em maior quantidade, certamente todo o sangue que aquela besta imunda havia sugado durante toda sua morte-vida.

E então… Aí é a parte em que tudo fica confuso… Sim, agora estou me recordando… Algo me acertou em cheio na cabeça e eu caí. Antes que eu apagasse, eu pude ver a face de quem me atacou. Meu Deus, meu Deus! Foi minha amada! Mas por quê? A maldição deveria estar acabada, a fonte de tudo havia sido destruída! Por que ela ainda agia como sua escrava? Por que atacou aquele que ela ama? Haverá um mal ainda maior por trás disso tudo? Alguém ainda mais poderoso? Deus, tende piedade de mim, preso aqui, esperando sabe-se lá que torturas! Não permita que eu me torne um deles, permita que pelo menos eu morra com dignidade! Fiz de tudo para extirpar uma abominação deste mundo, perdoa-me se falhei! Eu preciso sair daqui, preciso sair! Preciso libertar meu amor!

Enquanto isso, em uma sala próxima dali, a mulher contava, entre lágrimas, o ocorrido ao delegado:

– Ele nos atacou na porta da casa do meu namorado… Eu desmaiei, e quando recobrei minha consciência… O que vi… Foi horrível, ele o tinha degolado! Tinha sangue pra todo lado, eu achei que fosse desmaiar de novo, mas eu não podia, não podia… Então peguei um vaso e acertei na cabeça dele… Minha Nossa Senhora, eu jamais podia imaginar que ele faria isso! Ele estava um pouco obcecado, me seguia, me ligava, mas nunca pensei que pudesse chegar a tanto… Eu devia ter procurado a polícia antes… Foi minha culpa, e agora… Agora ele está morto…

E desabou em um choro convulsivo, enquanto o delegado tentava acalmá-la:

– Não se culpe. O único culpado é aquele monstro preso na cela.