Inverno na Alma

            Os amigos diziam há muito que ele precisava sair, tentar se distrair, viver a vida. De tanto ouvir a mesma coisa, resolveu tentar, nem que fosse para pelo menos poder dizer que não tinha adiantado nada. Mal se colocou para fora, sentiu-se mal. Lá fora o frio era insuportável. O vento vinha cortante e parecia atravessar sua carne como uma faca afiada que lhe alcançava os ossos. Sentia o corpo todo tremer, a voz não lhe saía, os membros quase não lhe obedeciam, sentia-se congelando. Não pôde resistir por muito tempo, precisava voltar, precisava de seu abrigo. Correu de volta para casa, para sua segurança. Quando entrou ainda tiritava de frio, mas já se sentia melhor ao ver os objetos familiares. Fechou a janela e os olhos, enrolou-se num cobertor de poemas e acendeu a lareira das cartas que ela havia-lhe escrito. Agora sim, agora tudo era calor e aconchego, sentia o coração pulsando cada gota de sangue em seu corpo cansado. Sentia-se quente, quente como as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Não importava se ela já não existisse, as palavras tinham resistido. As palavras que ele tinha juntado por ela, as frases que ela havia feito por ele. Todas ali, vivas em suas mãos e ao alcance de seus olhos, refazendo cada momento que eles tiveram juntos. Como era bom o acalanto de suas lembranças comparado ao gélido dia de verão tropical que insistia em acontecer, incônscio de seu sofrimento. Nada mais lhe importava além das antigas palavras que tinham sido ditas e escritas.

            Lá fora, o frio era insuportável.