Uma garota com um D no pescoço

Aquela noite, preferiu jantar fora. Estava com preguiça de fazer comida e lavar a louça, então resolveu comer em um restaurante ali perto. Fez seu prato, sentou-se e começou a refeição distraidamente. Estava quase terminando quando, na mesa à sua frente, sentou-se uma garota linda, de cabelos louros na altura do pescoço, e que usava um decote que era bem generoso. Óbvio que foi isso que primeiro lhe chamou a atenção, o encontro dos dois seios que o decote deixava aparecer. Ficou passeando com os olhos por ali, por cima do tecido branco, imaginando como seriam os mamilos daquele belo par de seios. Dali subiu para o peito, admirando as sardinhas que encontrou por lá, e finalmente viu seu pescoço, com um colar com a letra D pendurada.

Passou a pensar qual seria o nome daquela gracinha, enquanto disfarçava e olhava seu rosto. Daniela? Devia ser Daniela. Ou talvez Débora. Não havia muitos nomes de mulher com D, pensou consigo mesmo.

Enquanto terminava seu suco, perguntava em sua cabeça por que não ia até lá falar com ela. Besteira, provavelmente levaria um fora, atrapalharia a refeição dela. Podia esperar ela terminar para tentar… Mesmo assim, ela não ia querer nada com ele, era bonita demais para isso, tinha certeza. Ainda mais chegando assim, nessa cara de pau toda. Lembrou então das palavras de um amigo seu que sempre lhe dizia que, se ele não tentasse, jamais conseguiria. É, ele tinha razão. O que tinha a perder, afinal? Não tinha ninguém conhecido ali para achar engraçado, nunca mais veria a garota de novo, então que mal poderia haver? Sim, mas o que ele poderia dizer? Como se apresentaria? – Olá, boa noite, lindo par de seios, hein?

Uma ideia lhe surgiu à mente. Claro! Era uma chance em duas, ou ela se chamava Daniela, ou Débora, bastava chamar-lhe pelo nome. Só precisava acertar qual deles, não era tão difícil, 50% de possibilidade de acerto. Olhou para ela mais uma vez… Sim, ela tinha cara de Débora, só podia ser Débora. Logo ela terminou a comida e começou a beber o refrigerante. Era agora ou nunca.

Levantou-se olhando para o outro lado, de repente virou-se para ela e disse, com a maior naturalidade que lhe foi capaz:

– Débora! Quanto tempo não te vejo!

A garota olhou com cara de quem não estava entendendo nada. Droga, ele era mesmo um azarado, conseguiu errar o nome! Então era Daniela, ainda havia tempo para consertar:

– Não, não, desculpe, é Daniela, não é isso?

Ela apertou os lábios numa reprovação e olhou para baixo e de volta para ele. Não era possível, será que uma garota tão linda tinha um nome horrível como Deise ou Darlene? Denise! Ele não havia pensando em Denise! Mas o que faria agora? Não tinha cara para tentar mais uma vez a roleta dos nomes com D, pegaria muito mal. O problema é que também não tinha ideia do que fazer para terminar a situação, o que poderia dizer? “Sinto muito, acho que te confundi com alguém”? É, essa parecia uma boa opção.

Vendo a confusão nos olhos do rapaz, ela falou antes dele com um tom de ironia:

– Davi.

Ele não entendeu.

– Ahn?

– Davi. O D no meu pescoço é de Davi. Foi meu namorado quem me deu.

Mesmo sem ter ninguém por perto, ele queimou de vergonha. Que mancada. Que ideia imbecil tentar adivinhar o nome dela, tão estúpida que ela percebeu em dois tempos. Bom, de qualquer forma não se culparia por não ter tentado. Na próxima vez seria mais inteligente, mas não podia deixar que ela pensasse que ele era um idiota, precisava se desculpar de alguma forma.

– Olha, desculpe. Desculpe mesmo. Eu não sabia que você tinha namorado. É que eu estava sentado ali e fiquei te admirando o tempo todo. Você é linda, chama a atenção… Mas claro que você já deve saber disso. Não foi só sua beleza, mas também o seu charme. Alguma coisa em você me atraiu e eu tinha que tentar te conhecer. E a única coisa em que pensei foi essa bobagem, de fingir que já te conhecia. – Nesse ponto, ela deu um meio sorriso – Me desculpe por ter te incomodado, estou morrendo de vergonha. Espero que você seja muito feliz com esse cara sortudo chamado Davi.

As palavras dessa vez saíram sinceras, até porque ele não estava inventando nada, mas por isso mesmo derreteram o gelo que existia entre os dois desde a tentativa frustrada de conhecê-la.

Ele ia saindo, quando ela falou:

– Vanessa. Meu nome é Vanessa.

– Prazer, Vanessa. O meu é Gabriel.

– Senta aí, vai. Não tem por que eu ficar com raiva de você.

Ele se sentou e pediram mais dois refrigerantes. Começaram a conversar, e ela mostrou-se ser tão interessante quanto era bonita. Também o papo dele a agradou, tirando aquela primeira impressão de que ele era um conquistador fajuto. E, assim, quanto mais falavam, mais tinham assunto para falar.

– Mas, Vanessa, afinal porque o dono do D não está aqui com você? – Perguntou Gabriel, sorrindo.

– Ele está em casa. Disse que está cheio de trabalho para fazer.

“Numa sexta-feira?”, pensou ele, mas não quis falar nada. Seria um golpe muito baixo entregar assim uma possível mentira do namorado dela. E, depois, ele não esperava conseguir mais nada com ela, só tinha gostado mesmo da sua companhia, não seria ruim tê-la como amiga. Talvez o cara estivesse trabalhando mesmo, tem gente que é doente, e mesmo tendo uma garota tão bonita prefere passar a noite em meio a papéis.

Mas ao ver o silêncio de Gabriel, acabou por sentir os pensamentos deste. E, pelo sim, pelo não, disse:

– Taí, vou ligar pra ele e confirmar se ele está em casa mesmo.

Gabriel sentiu um certo remorso, mas torceu para que o tal Davi não estivesse. Se ele atendesse aquele telefonema, ela se sentiria culpada e a noite estaria acabada, talvez ela fosse embora na hora. Mas, se ele não atendesse… Quem sabe o que poderia acontecer?

Segundos se passaram como se fossem horas. Após dez toques, ela desistiu.

– Não atende.

Gabriel sentiu que o estrago estava feito. No dia seguinte o namorado dela poderia inventar uma desculpa qualquer, dizer que tinha saído exatamente naquela hora para comprar alguma coisa, que estava tomando banho, qualquer coisa poderia ser aceita, ainda mais se ela gostasse mesmo dele. Talvez até mesmo houvesse um motivo sério para que ele não atendesse ao telefone. Mas, agora, o efeito tinha sido grande.

Vanessa desligou o celular, deixando-o fora de área, dando um muxoxo e dizendo:

– Ele que não me ligue mais hoje.

Gabriel sentiu voltar suas esperanças. Então ainda podia tornar aquilo mais que uma simples conversinha num restaurante à noite. Se conseguisse um beijo, um único beijo daquela linda mulher que era comprometida com outro homem, estaria feliz e iria para casa aos pulos.

Logo após guardar o telefone, Vanessa emendou:

– Tá ficando tarde. Acho melhor irmos embora.

Droga. Estaria tudo acabado, justo agora? Será que ela teria ficado tão chateada que queria ir chorar sozinha?

Foi quando um pensamento atingiu Gabriel e o fez tomar coragem para tentar alguma coisa antes do fim. Se ela queria mesmo ir para casa, para que desligou o celular dizendo que não queria mais que o namorado ligasse se, provavelmente, teria o telefone fixo para atender quando chegasse lá?

Ele disse a pergunta meio temeroso. E se ela se ofendesse? Não importava, ele precisava tentar ou passaria o resto da vida se arrependendo.

– Você não quer ir até o meu apartamento? Podemos continuar conversando, para espairecer.

Que tolice, pensou consigo mesmo, como pude dizer tamanha bobagem! Mas qual não foi sua surpresa, ao ouvir como resposta:

– Tudo bem. Você é um cara legal, sabia?

Seu coração explodiu, batia acelerado, não conseguia acreditar. Agora estava mais próximo do que nunca, aquela garota maravilhosa ia com ele para a sua casa. Já no elevador ele olhou em seus olhos, e viu que mais nada precisava ser dito.

Beijaram-se.

Gabriel saboreou cada momento daquele beijo. Era bom demais para ser verdade, parecia como um sonho que poderia terminar a qualquer momento. Ela era a mulher mais linda que ele já tinha beijado, seu corpo era quente e seus lábios macios. Ele mal podia acreditar.

Não disseram mais palavra alguma depois que entraram. Ela beijava cada vez com mais vontade. Não tardou para que ela tirasse a roupa e, junto com ela, aquele D pendurado como se fosse uma marca de propriedade. Agora ela não era de mais ninguém, agora ela era dele, e Gabriel enchia-se de orgulho por ter conseguido. Foram para o quarto. Ali, com aquela beleza toda ao seu alcance, os seios que o tinham atraído em primeiro lugar a mostra, lindos, as sardinhas deliciosas subindo até o pescoço, sentiu-se o homem mais feliz do mundo e queria que aquele momento durasse a eternidade. No dia seguinte ela talvez se enchesse de remorso, talvez nunca mais quisesse ver Gabriel. Amanhã poderia acontecer qualquer coisa, mas nada importava pois naquele momento tudo era perfeito.

E ao possuí-la linda, nua e ofegante, ao senti-la se entregando toda para ele, sendo dele, só dele, quase sentiu pena do namorado dela.

Quase. Porque, afinal de contas, um cara que dá para a namorada um cordão com a primeira letra do próprio nome merece mesmo ser corneado.

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