Sobre sexo e palmas numa ilha do Atlântico

Contam antigos relatos encontrados em um manuscrito – e também lendas colhidas entre a população mais velha – sobre uma ilha perdida no oceano Atlântico. Tal ilha teria sido descoberta em algum ponto das navegações por uma comitiva de europeus, mas não se sabe ao certo qual foi a época exata. Sabe-se que, ao chegarem lá, encontraram um povo de índios que, como cabe aos índios, andavam totalmente nus no calor tropical da terra. Mas o que mais os espantou não foi esse fato, já amplamente divulgado à época, mas sim a fornicação que ocorria por todas as partes do lugar, em todas as modalidades possíveis. Aonde quer que se fosse, havia pelo menos um homem possuindo uma mulher, no chão, no mato, nas árvores. Mas não era só isso, encontravam-se também homens sodomizando mulheres ou mesmo outros homens, mulheres tocando suas semelhantes, felações de todos os tipos e até mesmo orgias, nas mais variadas formas e quantidades, e isso em plena luz do dia, por toda a parte, sem pudor algum. Havia até pessoas utilizando-se do onanismo, e isso se explicava por que, entre eles, era uma grande falta de educação ter intercurso sexual com alguém e não levá-lo ao orgasmo. Sendo assim, quando queriam simplesmente satisfazer a si mesmos de forma rápida, preferiam se masturbar.

Era uma vergonha completa e o padre que veio com o navio ficou horrorizado. O chefe da tribo veio ter com eles, agindo de forma muito amistosa e oferecendo inclusive algumas nativas – elas tinham ficado um tanto quanto excitadas pela novidade daquelas peles brancas.

Um ultraje, pensava o sacerdote – embora alguns dos marujos estivessem interessados na oferta –, e passou a pregar entre eles o evangelho, dizendo que tudo aquilo era indecoroso e que todos iriam para o inferno se insistissem naqueles pecados (a língua que os nativos usavam era a mesma dos índios do continente, e como o padre já havia catequizado alguns por lá, sabia, portanto, como se comunicar).

Ao que os nativos perguntavam, sem entender, que mal poderia haver em ter e dar prazer uns aos outros.

O padre respondia que Deus abominava tudo aquilo e que castigaria todos.

Mas como poderia ser, perguntavam os índios, se sempre fizeram tudo aquilo e Deus nunca enviou um sinal de que era errado? Além do mais, e quanto a todos os seus honoráveis antepassados, como eles podiam saber que era pecado se nunca alguém disse isso a eles? Estariam todos eles agora sendo castigados?

O padre disse que sim, que assim era. Disse que todos precisavam se arrepender e se penitenciar. Os índios não entenderam bem e acharam que aquele homem não deveria ser bom da cabeça. Estando eles felizes e satisfeitos, por que deveriam se arrepender e sofrer? Sendo assim, ignoraram os ensinamentos e continuaram a copular alegres.

O padre ficou irado, e começou a bater palmas para que os índios lhe dessem atenção, o que acabou por ocorrer, mas não da forma como ele esperava. Todos olharam indignados para ele, e o chefe ordenou que ele parasse com aquele ato ímpio.

O padre replicou que não entendia o que havia de errado em bater uma das mãos contra a outra.

O chefe respondeu que aquela era a coisa mais suja que um habitante dali poderia fazer. Era uma falta de respeito aos ouvidos dos outros, uma ofensa à pele das mãos, uma agressão completa.

O padre disse que eram todos loucos e partiu com a tripulação – com parte dela, pelo menos, já que alguns preferiram ficar, pois tinham encontrado algumas belas índias por lá.

Meses depois, uma nova expedição chegou, trazendo mais homens com armas. O padre e o capitão da tropa postaram-se perante a tribo e exigiram que eles se rendessem e deixassem de pecar. O chefe da tribo respondeu que, se fosse para deixar de serem felizes, eles preferiam a morte.

O padre então ordenou que a tropa batesse palmas, ao que todos obedeceram. Os índios ficaram irados, gritando que parassem. A guerra era iminente, as armas estavam sendo empunhadas em ambos os lados. Só que, indiferente a tudo, um dos europeus enamorou-se de uma das mais belas índias que ali estava, e ela dele. Notando que a batalha acabaria com a chance de terem um ao outro, abraçaram-se e tiveram uma ideia.

Quando a luta estava para começar, os dois começaram a fazer amor bem no meio do campo de batalha. A tropa europeia ficou espantada, um dos seus cometendo tal pecado, ali, frente a todos, enquanto os índios riam-se. Foi quando o casal passou a bater palmas enquanto gemia. Foi a vez então dos índios assustarem-se em ver uma de suas companheiras cometendo tal iniquidade. Assim ficaram, ambos os lados, perplexos; mas, vendo os dois executando os supostos pecados de cada uma das partes, acabaram por perceber quão ridículo era proibir ou brigar por aquilo. Sendo assim, as índias passaram a agarrar os soldados, que batiam palmas para sua beleza. O padre quedava-se sozinho gritando contra tudo aquilo, até que foi agarrado por quatro índias. A princípio tentou lutar, mas, por fim, não conseguiu resistir aos encantos daquelas belas morenas.

Conta-se então que a vida voltou ao normal e que os forasteiros integraram-se ao modo de vida do lugar.

Já outra versão diz que esse final não passa de uma lenda criada posteriormente e que, na verdade, a população da ilha foi dizimada pelo exército que chegara – ou por outro que foi enviado tempos depois. Nesse ponto as opiniões diferem, e nesse caso os pertencentes à primeira tropa também foram mortos juntos com o povo do lugar. Essa versão hoje em dia é mais aceita, visto que tal ilha nunca foi encontrada e porque, afinal, seria bem mais próprio ao espírito humano.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s