Deus e o Diabo no Reino do Lago

<< anterior … próximo >>

  1. Prólogo (Prometeu acorrentado)
  2. Prometeu
  3. Venham, venham
  4. Ei, Deus (Ei, Diabo)
  5. Súplica dos Justos
  6. Oração da Criança
  7. Vacundê
  8. Hino a Pã
  9. Portador da luz
  10. A questão da maçã
  11. Cantiga profana
  12. Pompará Promê
  13. Queda de Zeus
  14. Canto de Prometeu
  15. Dual
  16. Gettin’ older ev’ry day
  17. Pandora/Roda dos séculos
  18. Epílogo (Viver!)

Lançado em junho de 2009
Gravado entre dezembro de 2007 e maio de 2009
Leo Lago: vocal, programações, violão e guitarra
Participações:
Lucas Lago: vocal em “Oração da criança”
Natasha Juliana: flauta doce em “Hino a Pã”

Todas as músicas por Leo Lago exceto:
“Cantiga profana” e “Ei, Deus (Ei, Diabo)”, por Léo Lago e Leandro Lago.

Todas as letras por Leo Lago exceto:
“Prólogo (Prometeu acorrentado)”, adaptada de Prometeu acorrentado, de Ésquilo;
“Súplica dos justos”, adaptada do Salmo 140;
“Oração da criança”, autoria desconhecida;
“Hino a Pã”, por Aleister Crowley, traduzida por Fernando Pessoa, introdução de Ajax, de Sófocles;
“Canto de Prometeu”, adaptada de “Prometheus” de Goethe;
“Pandora / Roda dos séculos”, adaptada do capítulo “O delírio”, de Memórias póstumas de Brás Cubas e do conto “Viver!” de Machado de Assis;
“Epílogo (Viver!)”, adaptada do conto “Viver!”, de Machado de Assis.



Letras:

1. Prólogo (Prometeu acorrentado)

– Eis-nos chegados aos confins da terra. Vamos, Hefesto! Passa-lhe os elos pelas mãos! Prende-os ao rochedo por fortes marretadas! Bate ainda mais! Aperta! De tal sorte que ele sinta, embora engenhoso, que é inferior a Zeus. Prende agora com toda a força este gancho de aço, atravessando-lhe o peito. Prende agora os pés por meio destes cravos.

– Vê! Que horrendo espetáculo! Ai de ti, Prometeu! Como me penaliza tua desgraça!

– Ai de mim!

– Ai de ti, Prometeu!

– Qual foi teu crime, Prometeu?

– Graças a mim, os homens não mais desejam a morte. Dei-lhes uma esperança infinita no futuro. Consegui que eles participassem do fogo celeste e desse mestre aprenderão muitas ciências e artes.

– Rouba-lhes as honras divinas para dá-las a seres que não viverão mais que um dia! Poderão, por acaso, os mortais minorar teu suplício?

2. Prometeu

Prometeu, Prometeu
Que crime ´cê cometeu?

A humanidade vivia na escuridão
Prometeu trouxe o fogo, mostrou o que é bom
Mas por esse crime ele há de pagar
Para sempre um abutre o fígado a devorar

Foi preciso um Hércules pra libertar
Prometeu de sua prisão na beira do mar
Mas será lembrado eternamente
No peito de todo aquele que sente

Traga-me a luz, traga o saber
Traga o que anseio desde o nascer

Ainda existe quem prefira a escuridão
Da ignorância, ao invés do que é seu
O fogo do conhecimento que nos trouxe Prometeu

3. Venham, venham

Eu tenho o bem
Eu tenho o mal
Eu sou o bem
Eu sou o mal

O mundo é bom
O mundo é mau
Eu sou um santo
Sou pecador

Eu sou eu
Eu sou meu
Eu sou todos
Eu sou Deus

Eu sou eu
Eu sou meu
Eu sou todos
Eu sou o diabo

Então venham, venham
Venham Deus e o diabo
Então venham, venham
Sejam bem-vindos
Deus e o diabo no Reino do Lago

4. Ei, Deus (Ei, diabo)

Ei, Deus, eu estou cansado
Eu sou sempre um desgraçado
Todos me chamam de safado
Só porque eu sou o diabo
Tudo que dá errado
Eu sou sempre o culpado
É guerra, crime e pecado
Eu sou sempre o condenado

Ei, diabo, pense em mim
Tudo sempre é ruim
Eles vivem a rezar
Para tudo melhorar
É sempre pelo amor de Deus,
vai com Deus, se Deus quiser
Podiam se virar sozinhos
E largarem do meu pé

Ei, Deus
Eles erram, matam, pecam,
sempre saindo da linha
E acham que a culpa
é sempre toda minha

Ei, diabo
Eles erram, matam, pecam
e ‘tão sempre a reclamar
E depois querem parar
para rezar

Ei, Deus, fui eu, não
Quem inventou a desunião
Ei, diabo, fui eu, não
Eu disse vivam como irmãos

Ei, Deus, quando eles erram
Não sou eu a possuir
Por que será que é tão difícil
O seu erro assumir?

Ei, diabo, eles vivem
Sempre a me renegar
E dizem que em mim
Não vão mais acreditar

Ei, Deus
Eles erram, matam, pecam, sempre saindo da linha
E acham que a culpa é sempre toda minha

Ei, diabo
Eles erram, matam, pecam e tão sempre a reclamar
E depois querem parar para rezar

(Que queres tu, meu pobre diabo?)

5. Súplica dos justos

Livra-me dos homens maus
(Livra-me, Senhor)
Guarda-me dos que maquinam maldades
(Guarda-me, Senhor)
No coração, projetando guerras
(Livra-me, Senhor)

Aguçaram a língua como serpentes
Peçonha de áspides debaixo de seus lábios
Armaram-me laços e cordas
Puseram-me armadilhas

Senhor, meu libertador
Cobriste a minha cabeça no dia da batalha

Não levantem a cabeça os que me cercam
Cubra-os a maldade dos seus lábios
Caiam-lhes as brasas vivas
Lançados em covas profundas
Para que não se tornem a levantar!

Senhor, meu libertador
Cobriste a minha cabeça no dia da batalha

Dá ouvidos, ó Senhor, à voz das minhas súplicas

6. Oração da criança

Querido Deus,
gosto muito de você.
Gosto do papai, da mamãe,
dos meus irmãos
e de todos os meus amigos.
Deus, obrigado pelos brinquedos,
pela escola, pelas flores,
pelos bichinhos e por todas as coisas
boas e bonitas que você fez.
Quero que todas as crianças
conheçam e gostem de você.
Obrigado, Deus,
porque você é muito bom.

7. Vacundê

8. Hino a Pã

Eu estremeço em êxtase;
Plano nas asas da alegria súbita!
Oh Pã, oh Pã, aparece-nos, pirata do mar,
Do abismo de pedra de Cilene batida pela neve.
Rei, criador da dança para os deuses, vem,
A fim de que juntando-te a nós possas fixar nos
Passos de Nísia e Cnósia, as tuas danças
Que aprendeste sozinho. Agora eu quero dançar.
E possa Apolo, senhor de Delos, caminhar
Sobre o Mar Ícaro e juntar-se a mim sob a sua forma
Divina, em benevolência eterna.

Vibra do cio sutil da luz,
Meu homem e afã
Vem turbulento da noite a flux
De Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Do mar de além
Vem da Sicília e da Arcádia vem!
Vem como Baco, com fauno e fera
E ninfa e sátiro à tua beira,
Num asno lácteo, do mar sem fim,
A mim, a mim!
Vem com Apolo, nupcial na brisa
(Pegureira e pitonisa),
Vem com Artêmis, leve e estranha,
E a coxa branca, Deus lindo, banha
Ao luar do bosque, em marmóreo monte,
Manhã malhada da âmbrea fonte!
Mergulha o roxo da prece ardente
No ádito rubro, no laço quente,
A alma que aterra em olhos de azul
O ver errar teu capricho exul
No bosque enredo, nos nás que espalma
A árvore viva que é espírito e alma
E corpo e mente – do mar sem fim
(Iô Pã! Iô Pã!),
Diabo ou deus, vem a mim, a mim!
Meu homem e afã!
Vem com trombeta estridente e fina
Pela colina!
Vem com tambor a rufar à beira
Da primavera!
Com flautas e avenas vem sem conto!
Não estou eu pronto?
Eu, que espero e me estorço e luto
Com ar sem ramos onde não nutro
Meu corpo, lasso do abraço em vão,
Áspide aguda, forte leão –
Vem, está vazia
Minha carne, fria
Do cio sozinho da demonia.
À espada corta o que ata e dói,
Ó Tudo-Cria, Tudo-Destrói!
Dá-me o sinal do Olho Aberto,
E da coxa áspera o Toque ereto,
E a palavra do louco e do secreto
Ó Pã! Iô Pã!
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã Pã! Pã.
Sou homem e afã:
Faze o teu querer sem vontade vã,
Deus grande! Meu Pã!
Iô Pã! Iô Pã! Despertei na dobra
Do aperto da cobra.
A águia rasga com garra e fauce;
Os deuses vão-se;
As feras vêm. Iô Pã! A matado,
Vou no corno levado
Do Unicornado.
Sou Pã! Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!
Sou teu, teu homem e teu afã,
Cabra das tuas, ouro, deus, clara
Carne em teu osso, flor na tua vara.
Com patas de aço os rochedos roço
De solstício severo a equinócio.
E raivo, e rasgo, e roussando fremo,
Sempiterno, mundo sem termo,
Homem, homúnculo, ménade, afã,
Na força de Pã.
Iô Pã! Iô Pã Pã! Pã!

9. Portador da luz

Portador da luz
Quem és tu?

Portador da luz
Bebeste o sangue de Jesus?
Foste tu que o pregaste na cruz?
És o verso da moeda que tem
Do outro lado a face do bem?
És tu um rebelde caído
Ou para este papel foste escolhido?
És quem tenta a humanidade,
Orgulhoso e cheio de vaidade,
Ou amas os mortais sem maldade?
Ofereceste o fruto por malícia
Ou nos deste liberdade vitalícia?

Portador da luz
Qual é tua luz?

10. A questão da maçã

Qual seria a sua escolha?
O que você preferiria?
Viver no paraíso de olhos fechados
ou ver a luz,
mesmo arriscando que essa luz
seja forte demais para os seus olhos?
O que você preferiria?
Qual seria a sua escolha?
Comer do fruto da árvore da vida,
queimar-se no fogo do conhecimento,
possuir a luz da sabedoria,
ou viver para sempre no
paraíso da ignorância?
Não saber é não sofrer
A escolha é de cada um
A escolha é sua
Qual é a sua escolha?

11. Cantiga profana

Quero beber do vinho do desconhecido
Quero provar do fruto que foi proibido
Deus não escreve livros mas sim a mão do homem
Já faz tempo não acredito em bicho-papão nem lobisomem

Quero dançar entre xamãs e pajés
Quero saudar deus Baco – evoé!
Fazer uma orgia e comungar com a deusa da terra
Sentir a mãe natureza e descobrir uma nova era

Quero dançar ao som do festim de Pã
Quero ficar face a face com Satã
Quero discutir filosofia com anjos, arcanjos e serafins
Quero entender o que vem do começo e qual é enfim o seu fim

Quero rasgar o antigo e negro véu
Quero rodar em transe sob o léu
Quanto conhecimento enterrado sob um lixo de superstição
Pensam que tudo que não é santo com certeza é do cão

Quero beber da água da fonte da vida
Quero enfiar meu dedo bem na ferida
Quero beber seu sangue e comer sua carne numa transmutação
Quero com o universo inteiro fazer a grande comunhão

Quero sentir o real poder de Deus
Pois ele vê o mundo pelos olhos meus
O satanista e o crente são duas faces de uma mesma moeda
O mal não larga do bem, e o bem do mal não arreda

Quero saber do universo, a verdade
Quero dar adeus a toda insanidade
Quero esquecer os monstros das fogueiras, as velhas quimeras
Quero andar junto aos meus irmãos, filhos dessa terra

12. Pompará Promê

Prometeu desceu à terra
Trazendo o fogo na mão
Vem de lá o tal de Zeus
Prometeu foi p´ra prisão

Prometeu, Prometeu
Que crime ´cê cometeu?

13. Queda de Zeus

Caíste, Zeus
Não como um raio
Mas como um fruto
Que apodrece no galho

Teu orgulho, ó Zeus
Teu poder, teus raios
São explicados
Pela humana razão

Foste esquecido
Já não és nada
Se ninguém acredita
Em tua majestade

E em silêncio,
Foste esquecido
Entre a poeira
Dos tempos perdido

Caíste, Zeus
Vencido

14. Canto de Prometeu

Encobre, ó Zeus
Teu céu com tuas nuvens
E como um garoto
Colhendo cardos
Pratica tuas artes
Em carvalhos e cumes
Mas tem que deixar-me
Essa terra que é minha
E a minha cabana
Que não construíste
E essa minha forja
Cujo fogo ardente
Tu me invejas

Nada mais pobre eu conheci
Sob o sol do que vós, deuses!
Mal conseguis se alimentar
com tributos de oferendas
E sopros de preces
E morreríeis de fome
com toda vossa majestade
Se não fossem as crianças
E os mendigos pobres loucos
cheios de esperança

Quando eu era criança
E nada conhecia
Ao sol se erguiam
Meus sentidos olhos
Como se lá houvesse
Um ouvido a escutar
Meus tristes lamentos
E um coração como o meu
Que fosse consolar
Toda minha angústia

Quem me ajudou
Contra todos os Titãs?
Quem me resgatou
Da escravidão?
Não foi meu ardente
coração sem ajuda?
E enganado, jovem e bom,
Por sua salvação queimou
Agradecido àquele que
dorme lá em cima?

Eu, prestar-te homenagem?
Mas pelo quê?
Alguma vez aliviaste
A angústia dos oprimidos?
Alguma vez secaste
Lágrimas dos infelizes?

Não foi o Tempo
onipotente
Que forjou em mim
a humanidade
E o Destino eterno
Meu mestre
E teu também?

Pensaste talvez
Que eu fosse odiar
Esta minha vida
Fugir aos desertos
Porque não deram frutos
Todos meus sonhos?
Pois aqui estou eu
Formando homens
À minha imagem
Raça como a minha:
Para chorar e sofrer
Para sorrir e gozar
E que te não respeite
Assim como eu
Nunca respeitei!

15. Dual

16. Gettin’ older ev’ry day

We’re gettin’ older ev’ryday
We’re gettin’ older ev’ryday

Quanto tempo ainda tenho?
Quanto tempo ainda terei?
Quanto tempo ainda tenho?
Isso eu nunca saberei
Pois quando tempo eu não tiver mais
Então será tarde demais
Tarde demais para saber

Memento mori
Tempus fugit

Vulnerant omnes,
ultima necat

Vita brevis breviter
in brevi finietur,
Mors venit velociter
que neminem veretur

17. Pandora / Roda dos séculos

– Tu sempre dirás que queres viver!

Caiu do ar? destacou-se da terra? não sei; sei que um vulto imenso, uma figura de mulher me apareceu então, fitando-me uns olhos rutilantes como o sol. Vastidão das formas selváticas, tudo escapava à compreensão do olhar humano. Os contornos perdiam-se no ambiente, e o que parecia espesso era diáfano.

– Quem és tu?

– Chama-me Natureza ou Pandora, pois levo na minha bolsa os bens e os males, e o maior de todos, a esperança, consolação dos homens.
Sou tua mãe e tua inimiga
Não sou somente a vida; sou também a morte
Grande lascivo, espera-te a voluptuosidade do nada!

– Dê-me mais alguns anos… Meses… Dias… Instantes…

– Para que queres tu mais alguns instantes de vida?
Para devorar e seres devorado depois?
Não estás farto do espetáculo e da luta?
Conheces tudo o que eu te dei menos torpe ou menos aflitivo:
o alvor do dia. a melancolia da tarde,
a quietação da noite, os aspectos da Terra,
o sono, enfim, o maior benefício das minhas mãos.
Que mais queres tu, sublime idiota?

– Viver somente, não te peço mais nada.
Quem me pôs no coração este amor da vida, senão tu?
E, se eu amo a vida, por que te hás de golpear a ti mesma, matando-me?

– Porque já não preciso de ti.

Não importa ao tempo
o minuto que passa,
mas o minuto que vem.
O minuto que vem é forte,
pois supõe trazer em si
a eternidade,
mas traz a morte,
e perece como o outro,
mas o tempo subsiste,
mas o tempo subsiste.

– Vejas, então, a redução de todos os séculos!

O desfilar de todos os séculos
as raças todas,
todas as paixões,
o tumulto dos impérios,
a guerra dos apetites e dos ódios,
a destruição recíproca dos seres e das coisas.
a condensação viva de todos os tempos.
Os séculos desfilam num turbilhão
flagelos e delícias,
desde a glória até a miséria,
e o amor multiplicando a miséria,
e a miséria agravando a debilidade.
a cobiça que devora,
a cólera que inflama,
a inveja que baba,
e a enxada e a pena, úmidas de suor,
e a ambição, a fome, a vaidade,
a melancolia, a riqueza, o amor,
e todos agitam o homem, como um chocalho,
até destruí-lo, como um farrapo.
formas várias de um mal,
que ora mordia a víscera,
ora mordia o pensamento,
e passeava eternamente as suas vestes de arlequim,
em derredor da espécie humana.

A dor cedia alguma vez,
mas cedia a indiferença,
que era um sono sem sonhos,
ou ao prazer,
que era uma dor bastarda.

Então o homem, flagelado e rebelde,
corria diante da fatalidade das coisas,
atrás de uma figura nebulosa e esquiva,
feita de retalhos,
um retalho de impalpável,
outro de improvável,
outro de invisível,
cosidos todos a ponto precário,
com a agulha da imaginação;
e essa figura,
nada menos que a quimera da felicidade,
ou lhe fugia perpetuamente,
ou deixava-se apanhar pela fralda,
e o homem a cingia ao peito,
e então ela ria, como um escárnio,
e sumia-se, como uma ilusão.

E sempre e sempre, de novo e sempre,
um dia, outro dia e mais outro dia
um ano, outro ano e todos os anos,
todos os séculos e todos os séculos

As línguas morriam
Com o volver dos tempos,
esquecia-se tudo;
os heróis se tornavam apenas mitos,
e a história ia caindo aos pedaços

Os que se foram, nascendo impérios,
levaram a impressão que eram eternos
os que expiraram quando decaíam,
levaram a esperança do recomeço.

Prosperidade e desolação.
Eternas exéquias, aleluias eternas.

Auroras sobre auroras, ocasos sobre ocasos

E os séculos continuavam a passar,
velozes e turbulentos,
as gerações que se superpunham às gerações,
umas tristes, outras alegres,
e todas elas pontuais na sepultura.

As idades que vinham chegando e passando
Cada século trazia a sua porção
de sombra e de luz,
de apatia e de combate,
de verdade e de erro
e o seu cortejo de sistemas,
de idéias novas,
de novas ilusões;
cada um deles
rebentavam as verduras de uma primavera,
e amareleciam depois,
para remoçar mais tarde.

Fazia-se a história e a civilização,
e o homem, nu e desarmado,
armava-se e vestia-se,
construía o tugúrio e o palácio,
a rude aldeia e Tebas de cem portas,
criava a ciência, que perscruta,
e a arte que enleva,
fazia orador, mecânico, filósofo,
corria a face do globo,
descia ao ventre da Terra,
subia à esfera das nuvens,
colaborando assim na obra misteriosa,
com que entretinha a necessidade da vida
e a melancolia do desamparo.
o século presente, e atrás deles os futuros.
e assim passou e assim passaram os outros
com a mesma rapidez e igual monotonia,
até o último.

18. Epílogo (Viver!)

Eis-nos chegados ao fim dos tempos.

Sentado em uma rocha, o último homem fita longamente o horizonte, onde passam duas águias cruzando-se. Medita, depois sonha. Vai declinando o dia.

-Chego à cláusula dos tempos; este é o limiar da eternidade. A terra está deserta; nenhum outro homem respira o ar da vida. Sou o último; posso morrer. Morrer! Deliciosa ideia! Velha natureza, adeus! A morte consola-me. Aquela montanha é áspera como a minha dor; aquelas águias, devem ser famintas como o meu desespero

-Certo que os homens acabaram; a terra está nua deles.

-Ouço ainda uma voz… Voz de homem? Não, não és homem…

-Não. Prometeu é o meu nome.

-Não me iludes? Tu, Prometeu? Não foi então um sonho da imaginação antiga?

-Olha bem para mim, palpa estas mãos. Vê se existo.

-Tu, Prometeu, criador dos primeiros homens?

-Foi o meu crime. Ouve, último homem! O mundo passageiro não pode entender o mundo eterno; mas tu serás o elo entre ambos. uma raça nova povoará a terra, feita dos melhores espíritos da raça extinta. Nobre família, lúcida e poderosa, será perfeita comunhão do divino com o humano. Outros serão os tempos, mas entre eles e estes um elo é preciso, e esse elo és tu.

-Eu?

-Tu mesmo, tu, eleito, tu, rei. Tu serás rei.

-Iludes-me… Rei, eu?

-Tu, rei. Que outro seria? O mundo novo precisa de uma tradição do mundo velho, e ninguém pode falar de um a outro como tu. Assim não haverá interrupção entre as duas humanidades. O perfeito procederá do imperfeito. Contarás aos novos homens todo o bem e todo o mal antigo. Reviverás assim como a árvore a que cortaram as folhas secas, e conserva tão-somente as viçosas; mas aqui o viço é eterno.

-Visão luminosa! Eu mesmo?

-Tu mesmo.

-Estes olhos… estas mãos… vida nova e melhor… Visão excelsa! Fala, fala mais, conta-me tudo.

-A descrição da vida não vale a sensação da vida; tê-la-ás prodigiosa. Lá contarás à gente estupefata não só as grandes ações do mundo extinto, como também os males que ela não há de conhecer, lesão ou velhice, dolo, egoísmo, hipocrisia, a aborrecida vaidade, a inopinável toleima e o resto. A alma terá, como a terra, uma túnica incorruptível.

-Verei ainda este imenso céu azul!

-Olha como é belo.

-Belo e sereno como a eterna justiça. Céu magnífico, ver-te-ei ainda e sempre; tu me darás os dias claros e as noites amigas…

-Auroras sobre auroras.

-Anda, fala mais… fala mais…

(Continua sonhando. As duas águias aproximam-se.)

-Ai, ai, ai deste último homem, está morrendo e ainda sonha com a vida.

-Nem ele a odiou tanto, senão porque a amava muito.