Soneto cósmico

Quem me dera fazer jus com meu verso
ao que sinto quando juntos estamos.
Ainda que passem incontáveis anos,
minha alma se encontra em corpo diverso.

Quando estamos em puro amor imersos
por entre as estrelas unidos vamos;
mais alto que o mais alto astro, subamos,
e então seremos o próprio universo.

Finalmente de novo um só elemento,
nossos dois corpos nus soltos no espaço
na eternidade que dura um momento,

no instante antes que nos vença o cansaço,
vazio de mim, mas pleno o sentimento,
deixe-me morrer pequeno em teus braços.

Se um dia você me deixasse

(versão revisada)

Se um dia você me deixasse não sei o que seria de mim
Qualquer via seria impura e a amargura nunca teria fim
Andaria sem prumo, perderia o rumo do verso e prosa
Não teria certezas nem veria a beleza de uma rosa

Se você não me amasse eu acordaria de um sonho lindo
Mas se fosse um sonho eu então preferia que fosse infindo
Não sei bem ao certo sem você por perto o que eu faria
Após tanta doçura não teria cura essa agonia

Se outro alguém surgisse e levasse de mim seu coração
Não teria quem suprisse sua face, seu corpo, sua mão
Como afogar tanta saudade de quando fomos dois

Com você conheci amor de verdade, hoje, ontem, depois
Se um dia você me deixasse – que nunca exista esse dia
Porque se ele acaso chegasse eu acho que eu morreria

O tempo que contra tudo investe

Sábio Ovídio, poeta laureado,
é a verdade pura o que tu disseste!
Mais veloz foge que o vento apressado
o tempo que contra tudo investe.

Oh! Onde estarão as antigas taças
cheias do dulcíssimo mel divino,
toda a disputa, a paz e a bela graça
dos mais corados lábios femininos?

Crescem as vinhas, vagarosamente,
assim como a menina também cresce;
e o poeta, preso à sua própria mente,
tão sedento pela vida envelhece.

De que importa uma obra que seja eterna
se não mais for permitido o prazer
dos amores das filhas dessa terra
e do mais puro vinho se beber?


Livremente traduzido e adaptado de poema anônimo medieval.

Tempo de alegria

O tempo é de alegria, tão esperada!
Eu me sinto jovem contigo, amada!

O! O! Todo eu floresço!
Meu amor, não há mal, todo eu me aqueço;
novo, tão novo o amor é, que eu pereço!

Canta o rouxinol tão doce canção,
música que aquece o meu coração.

O! O! Todo eu floresço!
Meu amor, não há mal, todo eu me aqueço;
novo, tão novo o amor é, que eu pereço!

Flores femininas, quero colher
e na rosa das rosas me aquecer.

O! O! Todo eu floresço!
Meu amor, não há mal, todo eu me aqueço;
novo, tão novo o amor é, que eu pereço!

Brinca em meus sentidos, tanta beleza,
não existe tempo para incerteza!

O! O! Todo eu floresço!
Meu amor, não há mal, todo eu me aqueço;
novo, tão novo o amor é, que eu pereço!

Silencia, rouxinol, quieto, se acalma,
ouve a cantilena que me vem da alma. 

O! O! Todo eu floresço!
Meu amor, não há mal, todo eu me aqueço;
novo, tão novo o amor é, que eu pereço!

Tempos invernais, paciente vivo,
mas na primavera, tudo é lascivo!

O! O! Todo eu floresço!
Meu amor, não há mal, todo eu me aqueço;
novo, tão novo o amor é, que eu pereço!


Livremente traduzido e adaptado de poema anônimo medieval.

À Fortuna lamento eu

À Fortuna lamento eu
com os olhos marejados
pois tudo o que ela me deu
tenho de mim retirado.
Fronte plena capilar
mas é verdade tão alva
quando tentas agarrar
a Oportunidade é calva.

Orgulhoso me sentei
em um trono afortunado,
próspero tal qual um rei
com boas flores coroado;
mas se antes eu floresci
tão feliz e abençoado,
agora do alto eu caí
da minha glória privado.

A roda volta a girar:
descendo sou humilhado,
altera quem no alto está;
ao vértice é elevado
um novo rei a sentar,
cuidado com a ruína!
No eixo um nome há de enxergar:
é o de Hécuba, a rainha.


Livremente traduzido e adaptado de poema anônimo medieval.