Ave, formosíssima

Se eu bem falasse a língua dos anjos e humanos,
não me valeria expressar, por todos os anos,
por que elevo-me acima dos mais altos planos
mesmo sendo invejado e chamado profano.

Mesmo assim, cante, minha língua, a causa e o efeito!
Mas o nome da dama que queima em meu peito
mantenha velado, que não seja mostrado
o que é secreto àqueles não iniciados.

Vi uma bela flor se abrindo, vi a flor das flores,
eu vi a rosa mais linda com todas suas cores,
vi a estrela mais clara cheia de esplendores
pela qual me vi sucumbindo em amores.

Meu coração se perde naquilo que vejo,
eu todo me rendo ao inefável desejo;
bem sabendo que minha alma já era sua escrava,
diante dela me curvei enquanto a saudava:

“Ave, formosíssima, joia preciosa,
ave, glória entre as damas, dama gloriosa,
ave, luz das luzes, ave, mais bela rosa,
Brancaflor mais Helena, Vênus generosa!”


Livremente traduzido e adaptado de poema anônimo medieval.

Soneto invocatório

Ante os deuses somos pequenos,
temos tão pouco tempo aqui;
quem sou eu para resistir
aos desígnios da bela Vênus?

E sabendo-me ser tão fraco,
no tempo em que me perco em vinho,
em paz entrego meu caminho
ao bem-embriagado deus Baco.

Febo ilumine-me a poesia
se para os versos que eu queria
faltar-me a justa inspiração.

Seja a minha religião:
já que é preciso existir deus,
eu mesmo escolherei os meus.

Caminhando em gelo fino

Caminhando em gelo fino,
jogando com o destino;
seria só um desatino
sentir-me como um menino
que não sabe onde pisar?

O que será que eu procuro
logo ali depois do muro?
Nada espero do futuro;
quero meu porto seguro
no momento de voltar.

Já que a vida é coisa breve,
deixe que o vento nos leve,
até lá, onde se atreve
a coragem de quem deve
a vida saborear.

Que tenhamos no caminho
corações sempre em alinho,
beijos, amores e vinho;
só não me deixes sozinho
onde eu não possa te achar.