Soneto sem pressa

Mesmo sabendo a vida ser tão pouca,
não preciso ter pressa para entrar:
bem sei ter garantido o meu lugar,
a ti nenhuma parte minha é mouca.

Quero beijar bem fundo tuas bocas,
teus belos lábios úmidos provar;
transformar o deserto em pleno mar
agitado em mil ondas que vêm loucas.

E terás minha boca, língua e dentes
a espalhar teu sabor e teus sentidos
de um lado ao outro e atrás e em ti presentes

até quando tiver eu conseguido
que com as tuas coxas finalmente
sem sentir ensurdeça-me os ouvidos.

Duas a um só tempo eu amo

Tu mesmo, eu bem lembro, sempre estás a negar
que um pudesse a um tempo duas amar.
Por isso sou pego de surpresa e então clamo:
eis, pois, duas a um só tempo eu amo!
Uma e outra são lindas e ambas tão elegantes
e no charme já não sei qual vem antes.
Esta é tão formosa, mas a outra é mais bela;
vez me agrada esta mais, vez mais aquela.
Vago como um barco entre ventos opostos,
dividido entre duas me prostro.
Duplicas, ó Vênus, sem limite esse ardor?
Não me basta só cuidar de um amor?
Mais folhas às árvores, estrelas ao céu,
quantas ondas mais ao mar como um véu?
Mas antes assim do que morrer sem paixão;
inimigos meus, vos caiba o grilhão!
Aos meus inimigos caiba um quarto vazio
e deitar com pleno espaço no frio!
Mas a mim, que tire o sono o ardor de quem ama,
que eu não seja o único peso na cama!
Que a mulher esgote-me sem proibição;
se uma é pouco, sejam duas então!
hei de manter forças para tal, eu espero,
é agito em vez de paz o que quero;
ao corpo o prazer mesmo dará seu sustento.
Mulher minha sempre teve contento;
por vezes à noite em prazer fui consumido,
de manhã estava fortalecido.
Vênus, quem se perde em seu combate tem sorte!
Deuses, façam essa ser minha morte!
Que o soldado compre a eternidade ao seu nome
com seu sangue que a vil lança consome;
procure o mesquinho cultivar a avareza
e se afogue então na própria riqueza;
eu, que à bela Vênus entregue o coração,
que me deixem expirar na função;
há de alguém em lágrimas no enterro dizer:
“foi tal morte bem de acordo ao viver!”


Livremente traduzido e adaptado de poema de Ovídio.

O jardim do amor

Ao jardim do amor fiz minha partida
e o que eu vejo nem um pouco me anima;
uma capela foi bem no meio erguida,
onde um dia gozei da verde campina.

E os portões da capela bem trancados
e “Não farás” sobre a porta escreveram;
meus olhos de novo ao jardim voltados
onde tantas doces flores cresceram.

E são tantas sepulturas hediondas
e lápides em vez de flores vejo;
e sacerdotes de preto em rondas
atando em nós minha alegria e desejo.


Livremente traduzido e adaptado de poema de William Blake.

O torrão e o seixo

“O Amor não busca se satisfazer
nem por si mesmo tem qualquer cuidado;
mas pelo outro dá seu próprio prazer
e constrói um Céu no Inferno odiado.”

Assim bem cantava um torrão de terra
sendo pisado pelos pés do gado;
mas um seixo do rio que vem da serra
entoou de volta esses versos rimados:

“O Amor só busca se satisfazer,
acorrentar o outro só por troféu;
com o outro ganha seu próprio prazer
e traz um Inferno apesar do Céu.”


Livremente traduzido e adaptado de poema de William Blake.