Panegírico

Preciso em minha vida algo que enfim me toque
trazendo ao meu ouvido o chamado dos bosques;
quando em pânico eu solto um grito de socorro
e rumo ao que é profano em liberdade eu corro.

Dos portões da alvorada ouço o som de uma flauta
trazendo à minha mente a memória que falta.
A sua força, deus grande, o meu corpo sacode,
extático, estou vivo, homem, fera, deus, bode.

Qual insano me entrego ao meu eu mais primal:
sou um homem acima, um voraz animal,
sou filho desta terra, o universo em mim,
tão consciente da vida, um início em seu fim.

Entre as rochas escuto o roçar de meus cascos
esmagando o que é santo, entregue ao meu penhasco:
irascível volúpia! Eu sou metade bicho
e lascivo me rendo a todos meus caprichos.

Minha mais nobre arte, o ser mais primitivo,
ao prazer sempre atento e de nada me privo.
Seja esquecida a culpa, assim como o pecado,
um falso ensinamento, um tempo que é passado.

Hermético segredo ensinado ao rebanho
quando ardendo no fogo em luxúria me banho;
só um pastor existe aos livres e aos loucos:
a louca liberdade almejada por poucos.

Perdido de desejo, insaciável falo,
em riste qual espada eu sigo a empunhá-lo
pela úmida gruta onde se encontra a fonte
de todo ser que existe hoje, amanhã ou ontem.

Já que há tanta floresta e a colher tantas pinhas
por tudo isso desejo as ninfas todas minhas
e livres e de todo escolhido por elas
e bem saboreando essa vida que é bela.

Em minha arca de alma a música mais pura
e a poesia que encanta a nascer da natura.
Sou um pastor de verso a compor por instinto
o som e a voz de tudo o que em meu peito sinto.

Com amorais eu sigo embriagado em bom vinho,
grato a gozar a vida em êxtase caminho.
Dentro da minha mente eu sinto o despertar:
livre sonho desperto a quem o procurar.

Sou semente propícia em um solo fecundo,
pai e filho de tudo existente no mundo.
Desde o início do tempo eu sou muitos, sou vários,
para mim não existe e nunca houve um calvário.

Pois grande sou, primeiro e último entre os meus
imortal potestade, inabalável deus.
De um espaço ou do tempo eu nunca fui cativo,
uma era em um segundo, eternamente vivo.

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