Todas mulheres deste vasto mundo

Não vou defender meus costumes depravados
nem convencer um corpo de jurados.
Confesso – se me serve confessar pecado –
mas logo volto ao erro confessado:
faltam-me forças para resistir à fome,
à voracidade que me consome.
Não consigo ser por mim mesmo governado,
sou um barco por ondas arrastado.
Para que eu ame não é só uma a razão,
mais de cem me aquecem o coração!
Se uma baixa os doces olhos tão recatada,
inflamo, seu pudor é uma cilada;
se outra me encara provocante, esse seu jeito
imagino como seria no leito.
Se é culta, cultura traz-me a felicidade;
se é rude, agrada-me a simplicidade.
Uma diz que minha arte é por ela admirada?
Pois se lhe agrado, ela também me agrada.
Se critica os meus versos, fico a duvidar
que eu entre as suas coxas vá criticar.
Uma canta, sua voz acende o meu desejo:
eu só a calaria com os meus beijos;
outra toca delicada as cordas plangentes:
mãos tão hábeis ocupam minha mente.
Esta, que linda ao andar, braços lado a lado
e que arte possui em seu rebolado –
pensas que só sou eu? Hipólito, imagina,
Príapo seria com o jeito que ela empina!
Aquela, por ser tão grande, deixa-me aceso:
tal corpo suporta fácil meu peso;
outra, pequena, tantas possibilidades,
tão fácil de mover na atividade!
Não é elegante – mas pense só se fosse;
enfeitada – imagine sem, que doce.
Qualquer tom de pele desperta meus amores,
a Vênus pertencem todas as cores.
Da jovem o frescor, da madura, experiência;
atrai-me a beleza ou a inteligência.
Cabelos ruivos lembram-me o sol a se pôr,
os louros são uma manhã em flor,
se são negros são a noite de pura paz;
a todas o meu amor é capaz.
Enfim, todas mulheres deste vasto mundo
cabem bem em meu coração profundo.


Livremente traduzido e adaptado de poema de Ovídio.

Admira, fauno, teu triste momento

Admira, fauno, teu triste momento
como o sol na primavera a se pôr:
é bonito, mas assim que se for,
findará mais um dia de sentimento.

Nenhuma súplica, nenhum invento,
nenhuma lágrima irá evitar,
qual as ondas voltam vindo do mar
nada impedirá este teu tormento.

A noite descerá como uma manta,
tudo parecerá ser tão ruim,
teu desespero de nada adianta.

Mas verás que sempre há o que esperar:
mesmo a escuridão também tem um fim,
cedo ou tarde há de surgir luar.

Soneto da perdição

Ela inebriantemente surgiu
roubando minha razão e sentidos;
sem perceber acabei por vencido
em seu olhar que me enganou sutil.

Ela então bem fez o jogo que quis
e eu tanto desejei este tormento
que não consigo resistir, nem tento,
consumido em chamas, sofro feliz.

Desejo que pulsa, insana paixão,
barragem que rebenta a dar vazão,
é fome que vem depois do jejum.

Um fogo que arde sem controle algum,
não posso impedir, é trabalho em vão:
loucura que me leva à perdição.