A Sombra

Ó, quão triste e cansado fico aqui:
à minha dama estou sempre a servir
como mero escravo sobre este solo
e mesmo assim quase nunca a consolo.

Nós dois feridos, o sangue infeliz
manchou nosso tronco, podre a raiz
e já tinha o tempo jovem fugido,
de grisalho minha barba tingido.


Livremente traduzido e adaptado de poema de William Blake.

O Salto

Por tempos que eu já não sei precisar eu busquei minha evolução pessoal. Enquanto algumas pessoas procuram entender o que ocorre no exterior, eu sempre me importei mais com meu interior. Eu intentava principalmente me tornar um ser humano melhor, conseguir algumas das respostas que me queimavam no peito desde sempre, e acreditava que o que eu desejava encontraria dentro de mim. Bem, pelo menos o que eu poderia ter na limitação desse corpo, na prisão desse ego. Sabia bem que nunca resolveria a plenitude das minhas questões.

Por isso qual não foi minha surpresa ao receber uma mensagem vinda das distâncias mais longínquas do universo. Eu havia sido escolhido entre tantos outros seres humanos terrestres para ser transportado através da imensidão do espaço até um planeta mais evoluído.

Eles, assim me contaram, também vieram da Terra, eras atrás. Os mais evoluídos da nossa raça haviam escapado para outro lugar distante onde seguiram esse caminho de aprendizado. No entanto, decidiram continuar usando a Terra, seu antigo lar, como um local de estudo, um criadouro para novos habitantes que fizessem por merecer. Deixaram ensinamentos escondidos a serem aprendidos aos que realmente buscassem, aos que se mostrassem dignos de uma terra mais próspera e pacífica.

Mas por que eu, afinal? Por mais que eu tivesse conseguido alguma evolução, não me achava tão inteligente ou superior de forma alguma. A questão não era essa, me explicaram. Eles já tinham cultura e sabedoria o suficiente – poderia ser facilmente passado a mim. Não era isso que eles buscavam, mas pessoas que tivessem alcançado a iluminação, a pureza, a humildade. Uma pessoa pode estar plena de conhecimento e ainda assim ter o espírito corrompido. E isso não tinha nada a ver com inteligência ou cultura: estava ao alcance de todos os que dessem atenção aos sinais.

Muitos já haviam sido transportados ao longo da história humana, alguns completos anônimos, outros nem tanto.

Explicaram que eu seria transportado de forma quase instantânea para milhares de anos-luz de distância. Alguns segundos e eu teria feito o que chamaram de salto. Só havia um porém: esse intervalo que para mim seria um instante, na Terra seria um século. Não havia retorno. Mesmo que um dia eu desejasse voltar, todos que porventura eu tivesse conhecido estariam mortos.

Deram-me um tempo para pensar e decidir. Se eu desejasse partir, o salto seria feito em alguns dias, num lugar deserto. Se eu decidisse ficar, eu não teria recordações do incidente: minhas lembranças sobre isso seriam apagadas.

Eu não tinha muitos motivos para me preocupar. Meus pais já haviam falecido, eu não tinha filhos nem irmãos. Os familiares que ficaram eu não tinha contato. Os poucos amigos – colegas, deveria dizer? – que eu tive foram se perdendo com o tempo. Eu não simpatizava com ninguém em meu ambiente de trabalho, aliás, muito pelo contrário.

Só restava ela.

Ela, que eu já não via há tanto tempo – percebi que nem sabia mais quanto. Na grande solidão que foi seguir sem sua presença, os dias perderam o significado. Ainda assim, foi somente nela em quem pensei. Ela, que se afastou de mim depois de tantos anos juntos, depois de tantas juras e a crença em um amor eterno. Ela, que eu considerava ainda parte de mim mesmo que nunca mais tivesse me dirigido a palavra ou se interessado em saber como eu estava.

Nunca mais nos falamos – ela se afastou e eu respeitei – mas foi por ela que tentei cada vez mais ser um ser humano melhor. Sempre foi por ela que tentei evoluir. Acreditei que um dia ela voltaria e perceberia como eu havia lutado por isso, como eu era alguém completamente diferente e digno novamente de seu amor, de sua companhia.

Mas ela nunca retornou.

De que me adiantaria continuar nessa terra que já não me satisfazia, cercado por pessoas que já não me diziam nada? Eu aprendera a ser humilde, eu tinha renunciado à minha arrogância. Eu não era melhor do que ninguém, mas também já não tinha nada em comum com as pessoas tão ligadas a uma vida que já não era a minha. Eu seguia alienado em um mundo que me era indiferente. Ninguém mais compreendia o que eu sentia, ninguém podia ver o que eu via, ninguém nem ao menos se importava.

Será que perceberiam minha falta quando eu saltasse? Será que ela receberia a notícia do meu desaparecimento? Se preocuparia em saber o que foi feito de mim?

Verteria uma única lágrima que fosse por mim?

E de que me adiantava pensar nisso tudo? Nada mais existiria para mim.

Nada mais importava, afinal.

Dei o salto.

Derradeiro Amor

Vem, meu grande amor,
Acabar com minhas noites de solidão,
Com as tristes lembranças que carrego.
Eu, que tantas amei, serei somente teu
Quando assim desejares.

Vem, meu derradeiro amor,
Pousar teu beijo triste em mim.
Sei que não posso querer-te já,
Mas não posso não querer-te nunca.
Vem quando quiseres,
Quando for a hora…
Mesmo que eu nunca vá saber.

Vem, amante última!
Amor mais puro pois
Ama-me sem nada pedir.
Amante plena!
Amas a todos sem distinção.
Vem tocar-me com teus dedos frios!
Já não espero mais nada.
Já sinto teu gosto, ainda te temo,
Mas te amo – vem!
Vem que não quero mais nada.

Tenho saudade de lugares distantes que talvez eu nunca mais vá voltar. Mas por que lamentar? Assim também é com tempos que passei e que nunca mais vou ter. Pessoas que me foram tão caras e que não mais vão estar aqui. Até mesmo épocas que não vivi, que nostalgia sinto pelo que representam em mim!

Eu mesmo! Eu mesmo não posso mais ter aquele que fui um dia.