À sombra de uma murta

Por que eu deveria só prender-me a ti,
ó, adorável murta que eu escolhi?
Amores livres jamais poderão
serem presos ao que cresce do chão.

Ó, quão limitados se sempre aqui
só sob sua sombra eu poderia sorrir!
Como inútil semente sobre este solo
se só com minha murta eu me consolo.

Por que gastarmos tanto amor em vão
mantendo-o sob um pesado grilhão?
Por que sermos presos a suspirar
com tanta coisa que volta do ar?

A liberdade que sempre se quis
cortando a antiga e tão velha raiz
antes que o tempo jovem vá fugir
tal como uma folha seca a cair.

Por que deverias prender-te só a mim,
ó, minha adorável flor de jasmim?
Amores livres jamais poderão
serem presos ao que cresce do chão.


Livremente traduzido e adaptado de poema de William Blake.

O entardecer de um fauno

Ninfas de minha vida eu as tenho na mente,
de tuas peles meu corpo o toque leve sente;
meu peito inda duvida em versos que eu componho:
amor terei sonhado, eu só amei em sonho?

Ai de minha descrença, antiga noite em resto,
derrubada por terra enquanto bem atesto:
se não passou de sonho assim como eu suspeito,
que faz essa mordida ainda no meu peito?

Sozinho, reflito.
Cada vão momento
sonhando repito
em meu pensamento.

A pureza em cachos,
negro olhar, profundo.
Virgem mata onde acho
todo amor do mundo.

Longo tempo com ela eu tive alguma paz:
quando em serenidade, uma me satisfaz…

Mas vê!
Há tantos amores!
Viver
por todas as cores!

Meu desejo é tão livre, estou solto no espaço
uma e outra e nova presa então lascivo eu caço.
Quando em serenidade, uma me satisfaz?
Parece tão distante, eu já nem lembro mais.

Falta-me a justa força e sinto o ar espesso,
o peso no meu corpo agora que entardeço.
Em breve chega a noite e quem sabe sem lua;
a escuridão vem vindo e a mim já se insinua.

Ninfas, eu vos recordo em um último adeus;
vos cantarei lembrando os velhos sonhos meus:
em versos eu exponho a minha mente nua!
Vai, coração, confessa agora a culpa tua!


Inspirado por “L’après-midi d’un faune” de Stéphane Mallarmé.

Sinto

Dói. Sempre dói.
Sim, sinto dor.
Sinto dor porque estou vivo.
Sinto. Vivo.
Estar vivo é sentir.
Sinto tanto pois me sinto tão vivo.
Mais do que jamais me senti.
Sinto prazer. E sinto dor.
Sinto a dor em todos os seres que existem.
Tão forte que choro às vezes.
Não é fácil, mas é mais real do que não sentir.
Mais real do que jamais foi.
Mais real do que sentir alegria somente.
Do que querer sentir prazer o tempo todo.
E me sinto só.
Porque ninguém quer se sentir vivo.
Sentir a vida.
(É uma ilusão, afinal?)
Porque não é fácil se sentir assim.
Porque não.
Por que?
Porque.
Sinto.
Sim.