Alimente os lobos

Um outro dia começa. É muito importante manter uma rotina: faz com que o trabalho se torne menos difícil do que é, mantém a cabeça ocupada nas ações e não por pensamentos demais que vagam por lugares ermos e sombrios. Acorde cedo, faça o desjejum, parta para o trabalho. Afinal, nem sempre é tão simples conseguir o que se precisa. A maior parte das vezes ainda há o que se fazer após do almoço.

Nessa época, então, de frio e neve, as coisas se complicam ainda mais. É preciso muito mais esforço para conseguir caça  o suficiente e, para piorar, o sol se põe mais cedo.

Coloco as armadilhas e tento também a sorte com a espingarda. Não consigo muita coisa, faço uma nova caçada pela tarde e depois percorro as armadilhas, retiro o que consegui. Não é muito, mas o bastante. Mais um dia se vai.

Ponho os animais que consegui em frente ao portão. O sol já se foi, a noite logo descerá sobre a terra. Apresso-me a atravessar os grandes muros que cercam minha moradia. A porta é de madeira maciça e forte, os blocos de pedra pesados.

Entro em casa e aguardo enquanto a escuridão se aproxima. Logo começo a ouvir os primeiros uivos, cada vez mais numerosos e próximos. Finalmente, como acontece todas as noites, estão à minha porta, uma enorme balbúrdia de grunhidos enquanto se alimentam do que deixei.

É importante mantê-los assim: alimentados. Somente dessa forma me deixam em paz, se satisfazem e retornam ao seu covil.

Uma voz se faz ouvir – vem lá de fora ou da minha mente? -, uma pergunta insistente: “até quando pensas que pode detê-los com migalhas?”

Espanto a voz para longe, retiro um livro da minha biblioteca, tento manter a mente ocupada com amenidades na grande solidão do meu castelo.

O cansaço começa a surgir, o sono vai crescendo, deito e durmo – sem paz de espírito, mas descanso meu corpo.

***

Novo dia, mesmos afazeres. Percebo-me cada vez mais infeliz com esse cotidiano, sentindo-me cada vez mais exausto em repetir a mesma tarefa, dia após dia. Tudo parece vazio e sem propósito e esse sentimento só faz crescer.

Mas não há tempo para pensar demais – os animais estão cada vez mais escassos, o trabalho para consegui-los cada vez maior. O frio cresceu, a neve aumentou. Tudo me dificulta.

Mal consigo a quantidade necessária para manter os lobos satisfeitos. Quando termino, estou exausto. Atravesso o antigo portão quase me arrastando já ouvindo os uivos ao longe.

Esta noite eles parecem ainda mais famintos, como se sentissem a dificuldade que foi conseguir esse alimento. Como se cheirassem no ar a minha fraqueza, o meu cansaço.

Entre o rosnar das feras, ouço de novo a voz.

“Não poderás resistir por muito tempo. É inútil.”

Pego um livro e começo a ler. Tento não dar atenção.

“Pensas que és forte para resistir? O tempo está se esgotando. Sabes que não pode fugir para sempre.”

As palavras em que passo os olhos não fazem mais sentido. Eu só ouço a voz.

“Somos fortes. Por que insistes nisso? O que pretendes? Onde pensas que chegarás?”

Não, não, não. Chega. Tento fechar os olhos, tranco-me em meu quarto, mas a voz permanece. Está dentro de mim.

“Desista. Pare de resistir.”

Uma bebida há de esquentar o meu frio, entorpecer minha mente um pouco para que eu esqueça. Desço as escadas e pego um vinho na minha velha adega. Ainda me sobraram alguns de tempos mais festivos. Bebo enquanto continuo tentando ler e manter a voz longe. Aos poucos ela se esvai, sinto-me mais forte, menos solitário no vazio que me cerca.

Termino minha garrafa. Por que não abrir outra? Fez-me sentir melhor, estou mais confiante e até levemente alegre.

Sem pensar demais, estou enchendo minha taça mais uma vez.

***

Abro os olhos com dificuldade. A cabeça dói e tudo ao redor parece girar. A minha boca está seca. Não lembro como vim deitar. Demoro alguns instantes até retomar completamente a consciência.

De repente, a realidade invade minha mente de uma só vez e dou um pulo da cama. Que horas são? O quanto eu dormi?

Olho pela janela e percebo o sol já alto. Já é meio-dia. Tento me apressar, mas meu corpo mal responde, a cabeça está pesada como uma pedra. Enfio alguma comida goela abaixo, bebo água numa tentativa infrutífera de me sentir melhor, mas o enjoo me consome.

Preciso correr para fora e tentar conseguir carne mas tudo me é extremamente difícil. Sinto um temor inexplicável dentro de mim, tudo me parece inútil, a vida um grande erro. Arrasto meu corpo como um peso, uma alma prisioneira em um cadáver. Não pareço caçar, mas sim ser a caça perseguida por algo muito maior e mais forte do que eu.

A busca é infrutífera, consigo quase nada. O tempo é pouco, o frio aumentou, minhas mãos tremem e não conseguem se manter firmes. Nas poucas armadilhas que consegui colocar, mais da metade não tinha nada, e as que tinham, somente pequenos animais.

O que tenho é bem menos do que costumo deixar nos outros dias. Coloco na porta e entro ainda enjoado. Fecho o portão e rezo para que seja o suficiente para manter as feras satisfeitas.

Ouço os uivos se aproximando. Eles parecem saber, parecem mais afoitos e agitados do que nunca. Sinto que eles já estão ao portão. O barulho que fazem é ensurdecedor.

Passam a arranhar a madeira, se debater, rosnar em fúria.

Ouço a voz. Não, por favor.

“Sabias o tempo todo que era inútil.”

Subo na escada junto ao muro para verificar o que acontece do lado de fora. Os lobos deixaram de arranhar a porta e começaram a se unir. Um com outro, dois se tornam um, e outro e mais outro até se tornarem um único ser monstruoso, de pé sobre duas pernas, metade lobo, metade humano.

Desço em pânico. Quando chego ao chão, a fera em um único salto atravessa o muro e desce à minha frente.

Os caninos são afiados, os dentes rugem em uma ira insana, os pelos eriçados. Um animal selvagem.

Petrificado de medo, olho em seus olhos. À minha frente não está um ser estranho: reconheço o meu próprio olhar.

***

Corro em liberdade pela neve uivando em direção ao vilarejo. Tenho pressa, preciso aplacar a minha velha vontade. Depois de tanto tempo, estou faminto.

Preciso colocar minhas garras em ancas frescas, sentir meus dentes em pele tenra, o sangue quente em minha garganta.

Por que haveria de evitar o que me faz pleno? Já há muito não sou mais o que era, não tenho mais a força de outrora, mas ainda tenho o antigo instinto primal. O vento frio sopra mas não aplaca o meu fogo. Ao inferno a minha alma, a minha  carne eu satisfarei.

Hoje à noite, matarei minha fome.

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