O que é morto não envelhece

– Fernando?

A voz veio de muito longe, reverberando em seus ouvidos até finalmente ressoar com algum sentido em sua mente. Havia já muito tempo que não ouvia aquele nome. Virou-se e com alguma surpresa respondeu:

– Luiza! Nossa, como você está…

A palavra que lhe veio à cabeça de imediato foi velha, mas ele a conteve a tempo e prosseguiu:

– …elegante.

A senhora ainda ficou alguns segundos atônita enquanto ele sorria de leve como que saboreando aquele espanto.

– É você mesmo? Como isso é possível?

– Que nos encontremos aqui, agora? A vida ainda hoje me surpreende com esses pequenos acasos.

– Não, como é possível… Você! Como você pode estar tão jovem? A última vez que nos vimos você tinha… O que, uns quarenta anos? E agora mal aparenta ter trinta… Como isso é possível?

– Ah, o que é isso, bondade sua. Obrigado, mas são seus olhos…

O espanto inicial foi levemente obscurecido com alguma raiva.

– Eu estou velha mas ainda não estou senil. Você não precisa tripudiar de mim. É algum tipo de brincadeira? Você é filho, parente de Fernando?

Por alguns instantes ele olhou aquele rosto. Quantas rugas na pele que um dia havia sido tão suave ao seu toque. O olhar, tanto brilho havia ali antigamente, agora era somente um par de pedras opacas que mal mantinham a lembrança do que foram um dia. Os lábios! Quão doces eles foram e agora que repúdio lhe causavam.

O sorriso se foi e ele ficou sério, mas não o bastante. Mantinha alguma coisa irônica, indefinível, perdida em algum lugar do rosto indecifrável.

– Não estou tripudiando, nem é nenhuma brincadeira. Eu só não esperava te encontrar e acabei sendo jovial, sem intenção de te magoar.

Ela olhava espantada.

– Não pode ser você. É impossível.

– A escolha é sua, já que provavelmente nunca mais nos encontraremos de novo. Você pode sair daqui imaginando que sua mente lhe pregou uma peça, que você confundiu alguém mais jovem parecido com Fernando e que esse alguém resolveu brincar contigo. Talvez seja melhor e, afinal, não mudará nada.

– Você me chamou pelo meu nome e seus olhos… Seus olhos continuam os mesmos, não há mais como negar para mim mesma que é você.

– Certo. E o que você espera que eu te diga? Que eu explique como posso estar tão jovem, como os anos não passaram para mim? Eu não vou te dizer. Se você quer realmente saber, eu poderia. Poderia até mesmo fazer com que você rejuvenescesse, dividir contigo o que eu descobri.

Houve silêncio por um momento enquanto toda uma vida passava pela mente dele.

– Mas não vou. Considerando como você me abandonou anos atrás, não vou. Não quero.

– Eu não te abandonei, você que se tornou… Você nunca… Ah, esqueça. Você não entendeu na época, não fará diferença agora.

– Nisso você está certa, não fará diferença agora.

Ela ainda tentava organizar todos os fatos. Reencontrá-lo tanto tempo depois já era estranho, mas aquilo tornava tudo irreal. Mal conseguiu exclamar, na falta de palavras para expressar o turbilhão que sentia:

– Eu não acredito que você ainda guarde mágoa de tantas décadas atrás!

– E não guardo, querida. Nos encontrarmos aqui não foi minha intenção. Como eu disse, a vida ainda me surpreende com essas coincidências. Também não pretendia de forma alguma revirar lembranças tão antigas. Eu sempre evito cruzar com os rostos do passado. Quero dizer, os que ainda vivem, logicamente.

– Deve ser bem triste, não?

– O que? Ser eternamente jovem? Até agora, tenho me divertido bastante.

– Ver todos os que você conheceu, todos os que amou… morrerem.

– Ah, minha cara, você é tão velha quanto eu. Você viu a mesma porção de pessoas morrerem. Ou morremos ou vivemos para ver morrer, tanto as pessoas quanto os amores. A diferença é que eu sempre viverei. Você só me parece estar com alguma inveja.

– Se é o que você quer pensar, para mim tanto faz. Tive uma vida feliz e sei que a morte não pode estar muito longe, mas irei sabendo que aproveitei o que pude, que vivi plenamente.

– Se você diz, eu acredito em você. Eu, no entanto, prefiro continuar vivendo. E, veja, minha companhia chegou. Preciso ir.

Uma bela e jovem morena de vinte e poucos anos se aproximou e beijou-o.

– Oi, amor. Desculpa, eu demorei?

– Não, minha linda. Eu acabei de chegar.

Com um sorriso inocente, quase tolo, ela virou-se para a senhora e comentou:

– O Luiz sempre é pontual e eu sempre me atraso.

– Luiz?

– Sim, é o meu nome, respondeu ele com um sorriso. Desculpe-me, mas agora precisamos ir. Até mais.

Os dois já se distanciavam quando ela perguntou:

– Eu não te verei de novo, verei?

Ele virou-se e murmurou para que a outra não o ouvisse:

– Não, você não me verá mais, mas, quando chegar a hora, eu virei me despedir e lhe trarei flores.

Alimente os lobos

Um outro dia começa. É muito importante manter uma rotina: faz com que o trabalho se torne menos difícil do que é, mantém a cabeça ocupada nas ações e não por pensamentos demais que vagam por lugares ermos e sombrios. Acorde cedo, faça o desjejum, parta para o trabalho. Afinal, nem sempre é tão simples conseguir o que se precisa. A maior parte das vezes ainda há o que se fazer após do almoço.

Nessa época, então, de frio e neve, as coisas se complicam ainda mais. É preciso muito mais esforço para conseguir caça  o suficiente e, para piorar, o sol se põe mais cedo.

Coloco as armadilhas e tento também a sorte com a espingarda. Não consigo muita coisa, faço uma nova caçada pela tarde e depois percorro as armadilhas, retiro o que consegui. Não é muito, mas o bastante. Mais um dia se vai.

Ponho os animais que consegui em frente ao portão. O sol já se foi, a noite logo descerá sobre a terra. Apresso-me a atravessar os grandes muros que cercam minha moradia. A porta é de madeira maciça e forte, os blocos de pedra pesados.

Entro em casa e aguardo enquanto a escuridão se aproxima. Logo começo a ouvir os primeiros uivos, cada vez mais numerosos e próximos. Finalmente, como acontece todas as noites, estão à minha porta, uma enorme balbúrdia de grunhidos enquanto se alimentam do que deixei.

É importante mantê-los assim: alimentados. Somente dessa forma me deixam em paz, se satisfazem e retornam ao seu covil.

Uma voz se faz ouvir – vem lá de fora ou da minha mente? -, uma pergunta insistente: “até quando pensas que pode detê-los com migalhas?”

Espanto a voz para longe, retiro um livro da minha biblioteca, tento manter a mente ocupada com amenidades na grande solidão do meu castelo.

O cansaço começa a surgir, o sono vai crescendo, deito e durmo – sem paz de espírito, mas descanso meu corpo.

***

Novo dia, mesmos afazeres. Percebo-me cada vez mais infeliz com esse cotidiano, sentindo-me cada vez mais exausto em repetir a mesma tarefa, dia após dia. Tudo parece vazio e sem propósito e esse sentimento só faz crescer.

Mas não há tempo para pensar demais – os animais estão cada vez mais escassos, o trabalho para consegui-los cada vez maior. O frio cresceu, a neve aumentou. Tudo me dificulta.

Mal consigo a quantidade necessária para manter os lobos satisfeitos. Quando termino, estou exausto. Atravesso o antigo portão quase me arrastando já ouvindo os uivos ao longe.

Esta noite eles parecem ainda mais famintos, como se sentissem a dificuldade que foi conseguir esse alimento. Como se cheirassem no ar a minha fraqueza, o meu cansaço.

Entre o rosnar das feras, ouço de novo a voz.

“Não poderás resistir por muito tempo. É inútil.”

Pego um livro e começo a ler. Tento não dar atenção.

“Pensas que és forte para resistir? O tempo está se esgotando. Sabes que não pode fugir para sempre.”

As palavras em que passo os olhos não fazem mais sentido. Eu só ouço a voz.

“Somos fortes. Por que insistes nisso? O que pretendes? Onde pensas que chegarás?”

Não, não, não. Chega. Tento fechar os olhos, tranco-me em meu quarto, mas a voz permanece. Está dentro de mim.

“Desista. Pare de resistir.”

Uma bebida há de esquentar o meu frio, entorpecer minha mente um pouco para que eu esqueça. Desço as escadas e pego um vinho na minha velha adega. Ainda me sobraram alguns de tempos mais festivos. Bebo enquanto continuo tentando ler e manter a voz longe. Aos poucos ela se esvai, sinto-me mais forte, menos solitário no vazio que me cerca.

Termino minha garrafa. Por que não abrir outra? Fez-me sentir melhor, estou mais confiante e até levemente alegre.

Sem pensar demais, estou enchendo minha taça mais uma vez.

***

Abro os olhos com dificuldade. A cabeça dói e tudo ao redor parece girar. A minha boca está seca. Não lembro como vim deitar. Demoro alguns instantes até retomar completamente a consciência.

De repente, a realidade invade minha mente de uma só vez e dou um pulo da cama. Que horas são? O quanto eu dormi?

Olho pela janela e percebo o sol já alto. Já é meio-dia. Tento me apressar, mas meu corpo mal responde, a cabeça está pesada como uma pedra. Enfio alguma comida goela abaixo, bebo água numa tentativa infrutífera de me sentir melhor, mas o enjoo me consome.

Preciso correr para fora e tentar conseguir carne mas tudo me é extremamente difícil. Sinto um temor inexplicável dentro de mim, tudo me parece inútil, a vida um grande erro. Arrasto meu corpo como um peso, uma alma prisioneira em um cadáver. Não pareço caçar, mas sim ser a caça perseguida por algo muito maior e mais forte do que eu.

A busca é infrutífera, consigo quase nada. O tempo é pouco, o frio aumentou, minhas mãos tremem e não conseguem se manter firmes. Nas poucas armadilhas que consegui colocar, mais da metade não tinha nada, e as que tinham, somente pequenos animais.

O que tenho é bem menos do que costumo deixar nos outros dias. Coloco na porta e entro ainda enjoado. Fecho o portão e rezo para que seja o suficiente para manter as feras satisfeitas.

Ouço os uivos se aproximando. Eles parecem saber, parecem mais afoitos e agitados do que nunca. Sinto que eles já estão ao portão. O barulho que fazem é ensurdecedor.

Passam a arranhar a madeira, se debater, rosnar em fúria.

Ouço a voz. Não, por favor.

“Sabias o tempo todo que era inútil.”

Subo na escada junto ao muro para verificar o que acontece do lado de fora. Os lobos deixaram de arranhar a porta e começaram a se unir. Um com outro, dois se tornam um, e outro e mais outro até se tornarem um único ser monstruoso, de pé sobre duas pernas, metade lobo, metade humano.

Desço em pânico. Quando chego ao chão, a fera em um único salto atravessa o muro e desce à minha frente.

Os caninos são afiados, os dentes rugem em uma ira insana, os pelos eriçados. Um animal selvagem.

Petrificado de medo, olho em seus olhos. À minha frente não está um ser estranho: reconheço o meu próprio olhar.

***

Corro em liberdade pela neve uivando em direção ao vilarejo. Tenho pressa, preciso aplacar a minha velha vontade. Depois de tanto tempo, estou faminto.

Preciso colocar minhas garras em ancas frescas, sentir meus dentes em pele tenra, o sangue quente em minha garganta.

Por que haveria de evitar o que me faz pleno? Já há muito não sou mais o que era, não tenho mais a força de outrora, mas ainda tenho o antigo instinto primal. O vento frio sopra mas não aplaca o meu fogo. Ao inferno a minha alma, a minha  carne eu satisfarei.

Hoje à noite, matarei minha fome.

Não é irônico que algumas pessoas questionem fatos como o formato da Terra ou a eficácia das vacinas e jamais parem para analisar suas crenças arraigadas, preconceitos e ideias pré-concebidas?

É a inversão completa do que deveria ser o ceticismo.

Sob o signo de Pã

Mesmo escrevendo há anos e já tendo publicado alguns poemas em coletâneas, somente em 2019 lancei meu primeiro livro. São 35 poemas escritos entre 2014 e 2018, agrupados como se um velho fauno – ou, quem sabe, alguém sob a influência do grande deus Pã – relembrasse seus amores e suas fortunas e desventuras.

COMPRAR:

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Livraria Cultura (físico)

DEDICATÓRIA:

Ao grande amor da minha vida.

ÍNDICE:

Soneto invocatório
Panegírico
O entardecer de um fauno
Ave, formosíssima
Soneto cósmico
Eternidade
Soneto dos bebedores
Caminhando em gelo fino
À sombra de uma murta
Vinho, mulheres e poesia
Tempo de alegria
O bosque de Pã
Soneto de confissão
Soneto do fado inevitável
Duas a um só tempo eu amo
Soneto da perdição
O senhor do caos
Pensaste tu que foste especial?
Admira, mulher, que breve momento
Soneto das cinzas da paixão
Ninfa tão bela, ninfa tão leve
Todas mulheres deste vasto mundo
Soneto sem pressa
O torrão e o seixo
Minha bela rosa
Como duvidas que és especial?
O jardim do amor
Ó, Fortuna
Confiteor
A sombra
À Fortuna lamento eu
Profunda cela 44
O tempo que contra tudo investe
Admira, fauno, teu triste momento
Poslúdio

NOTAS:

“O entardecer de um fauno” e “Poslúdio” foram inspirados por “L’après-midi d’un faune” de Stéphane Mallarmé.

“Ave, formosíssima”, “Vinho, mulheres e poesia”, “Tempo de alegria”, “Ó, Fortuna”, “À Fortuna lamento eu” e “O tempo que contra tudo investe” foram livremente traduzidos e adaptados de poemas anônimos medievais.

“Eternidade”, “À sombra de uma murta”, “O torrão e o seixo”, “Minha bela rosa”, “O jardim do amor” e “A sombra” foram livremente traduzidos e adaptados de poemas de William Blake.

“Duas a um só tempo eu amo” e “Todas mulheres deste vasto mundo” foram livremente traduzidos e adaptados de poemas de Ovídio.

“Confiteor” foi livremente traduzido e adaptado de poema do Arquipoeta.

“Profunda cela 44” foi livremente traduzido e adaptado de trecho de “De Eloísa para Abelardo” de Alexander Pope.