O Salto

Por tempos que eu já não sei precisar eu busquei minha evolução pessoal. Enquanto algumas pessoas procuram entender o que ocorre no exterior, eu sempre me importei mais com meu interior. Eu intentava principalmente me tornar um ser humano melhor, conseguir algumas das respostas que me queimavam no peito desde sempre, e acreditava que o que eu desejava encontraria dentro de mim. Bem, pelo menos o que eu poderia ter na limitação desse corpo, na prisão desse ego. Sabia bem que nunca resolveria a plenitude das minhas questões.

Por isso qual não foi minha surpresa ao receber uma mensagem vinda das distâncias mais longínquas do universo. Eu havia sido escolhido entre tantos outros seres humanos terrestres para ser transportado através da imensidão do espaço até um planeta mais evoluído.

Eles, assim me contaram, também vieram da Terra, eras atrás. Os mais evoluídos da nossa raça haviam escapado para outro lugar distante onde seguiram esse caminho de aprendizado. No entanto, decidiram continuar usando a Terra, seu antigo lar, como um local de estudo, um criadouro para novos habitantes que fizessem por merecer. Deixaram ensinamentos escondidos a serem aprendidos aos que realmente buscassem, aos que se mostrassem dignos de uma terra mais próspera e pacífica.

Mas por que eu, afinal? Por mais que eu tivesse conseguido alguma evolução, não me achava tão inteligente ou superior de forma alguma. A questão não era essa, me explicaram. Eles já tinham cultura e sabedoria o suficiente – poderia ser facilmente passado a mim. Não era isso que eles buscavam, mas pessoas que tivessem alcançado a iluminação, a pureza, a humildade. Uma pessoa pode estar plena de conhecimento e ainda assim ter o espírito corrompido. E isso não tinha nada a ver com inteligência ou cultura: estava ao alcance de todos os que dessem atenção aos sinais.

Muitos já haviam sido transportados ao longo da história humana, alguns completos anônimos, outros nem tanto.

Explicaram que eu seria transportado de forma quase instantânea para milhares de anos-luz de distância. Alguns segundos e eu teria feito o que chamaram de salto. Só havia um porém: esse intervalo que para mim seria um instante, na Terra seria um século. Não havia retorno. Mesmo que um dia eu desejasse voltar, todos que porventura eu tivesse conhecido estariam mortos.

Deram-me um tempo para pensar e decidir. Se eu desejasse partir, o salto seria feito em alguns dias, num lugar deserto. Se eu decidisse ficar, eu não teria recordações do incidente: minhas lembranças sobre isso seriam apagadas.

Eu não tinha muitos motivos para me preocupar. Meus pais já haviam falecido, eu não tinha filhos nem irmãos. Os familiares que ficaram eu não tinha contato. Os poucos amigos – colegas, deveria dizer? – que eu tive foram se perdendo com o tempo. Eu não simpatizava com ninguém em meu ambiente de trabalho, aliás, muito pelo contrário.

Só restava ela.

Ela, que eu já não via há tanto tempo – percebi que nem sabia mais quanto. Na grande solidão que foi seguir sem sua presença, os dias perderam o significado. Ainda assim, foi somente nela em quem pensei. Ela, que se afastou de mim depois de tantos anos juntos, depois de tantas juras e a crença em um amor eterno. Ela, que eu considerava ainda parte de mim mesmo que nunca mais tivesse me dirigido a palavra ou se interessado em saber como eu estava.

Nunca mais nos falamos – ela se afastou e eu respeitei – mas foi por ela que tentei cada vez mais ser um ser humano melhor. Sempre foi por ela que tentei evoluir. Acreditei que um dia ela voltaria e perceberia como eu havia lutado por isso, como eu era alguém completamente diferente e digno novamente de seu amor, de sua companhia.

Mas ela nunca retornou.

De que me adiantaria continuar nessa terra que já não me satisfazia, cercado por pessoas que já não me diziam nada? Eu aprendera a ser humilde, eu tinha renunciado à minha arrogância. Eu não era melhor do que ninguém, mas também já não tinha nada em comum com as pessoas tão ligadas a uma vida que já não era a minha. Eu seguia alienado em um mundo que me era indiferente. Ninguém mais compreendia o que eu sentia, ninguém podia ver o que eu via, ninguém nem ao menos se importava.

Será que perceberiam minha falta quando eu saltasse? Será que ela receberia a notícia do meu desaparecimento? Se preocuparia em saber o que foi feito de mim?

Verteria uma única lágrima que fosse por mim?

E de que me adiantava pensar nisso tudo? Nada mais existiria para mim.

Nada mais importava, afinal.

Dei o salto.

Inverno na Alma

            Os amigos diziam há muito que ele precisava sair, tentar se distrair, viver a vida. De tanto ouvir a mesma coisa, resolveu tentar, nem que fosse para pelo menos poder dizer que não tinha adiantado nada. Mal se colocou para fora, sentiu-se mal. Lá fora o frio era insuportável. O vento vinha cortante e parecia atravessar sua carne como uma faca afiada que lhe alcançava os ossos. Sentia o corpo todo tremer, a voz não lhe saía, os membros quase não lhe obedeciam, sentia-se congelando. Não pôde resistir por muito tempo, precisava voltar, precisava de seu abrigo. Correu de volta para casa, para sua segurança. Quando entrou ainda tiritava de frio, mas já se sentia melhor ao ver os objetos familiares. Fechou a janela e os olhos, enrolou-se num cobertor de poemas e acendeu a lareira das cartas que ela havia-lhe escrito. Agora sim, agora tudo era calor e aconchego, sentia o coração pulsando cada gota de sangue em seu corpo cansado. Sentia-se quente, quente como as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Não importava se ela já não existisse, as palavras tinham resistido. As palavras que ele tinha juntado por ela, as frases que ela havia feito por ele. Todas ali, vivas em suas mãos e ao alcance de seus olhos, refazendo cada momento que eles tiveram juntos. Como era bom o acalanto de suas lembranças comparado ao gélido dia de verão tropical que insistia em acontecer, incônscio de seu sofrimento. Nada mais lhe importava além das antigas palavras que tinham sido ditas e escritas.

            Lá fora, o frio era insuportável.

Clímax

            Em seus olhos vejo a vida, em seu corpo sinto o mundo, quando a possuo e a tenho junto a mim, quando me entrego, me perco e me acho em seus encantos. Desse amor tiro minha força, esse amor é tudo que eu preciso ter, toda explicação, toda a sabedoria.

            E, quando chega o clímax, sinto todo o universo em mim, em nós, que somos um só naquele momento que dura uma eternidade. A suprema comunhão, estou nela, estou em mim, estou em toda a parte. Sinto e não sinto, sou e não sou, estou presente em tudo e em nada no instante exato em que ambos chegamos onde tudo teve início e fim, sem início nem fim.

            Em uma dessas vezes, por uma única vez, fui ainda mais longe e pude ver o Criador. Ver sem ver, sentir sem sentir, algo além dos sentidos conhecidos. Estive diante Dele e senti que Ele sempre esteve em mim.

            Pude compreender que eu tinha direito a uma pergunta. Apenas uma, nada mais. Nada foi dito com sons, mas sentido, percebido por algo diferente de olhos e ouvidos. Porém, eu sabia, sentia em cada parte de meu ser, que havia um único segundo para mim. Logo tudo estaria consumado e eu voltaria aonde estava antes. Milhares de pensamentos passaram como um raio em minha mente, tantas dúvidas e questões, rodopiando como um furacão.

            Mas foi somente uma pergunta que saiu:

            – Por quê?

            Ao que me foi respondido:

            – Não sei; vos criei justamente para que me explicassem.

Amor

            – Eu tenho medo de te perder.

            E seu olhar pousou em mim, e seus olhos eram de súplica; tão profunda que chegou a me fazer duvidar e pensar em desistir daquilo que eu devia fazer. Já havia visto tal súplica antes, em outros olhos. Mas eram os olhos de minha mãe, olhos de quem sofre calada e consciente de que nada pode mudar no destino de quem pôs no mundo. Um olhar resignado, de quem já esperava por essa provação. Olhar de mãe. Mas os dela, eram olhos de mulher, olhos de esposa, olhos de quem possui e é possuída, e de quem exige esse direito.

            – Tu não vais me perder, sabes disso.

            – Não sei, meu coração nada sabe… Tenho medo. E se der tudo errado?

            Seus braços: seria tão mais fácil permanecer neles, em sua proteção feminina, com seus carinhos e seu toque. O que mais importa?

            – Não dará. Foi para isso que nasci, e para isso fui educado e treinado, desde então. Tenho que cumprir minha missão, a missão que me foi designada.

            – Racionalmente, penso assim. Mas no fundo do meu peito grito para que fiques, para que esqueçamos tudo, para vivermos nossa vida longe daqui.

            Seus lábios: tão doces, tão suaves, tão diferentes de toda a dor e sofrimento que eu teria que suportar em pouco tempo. Resistir o que outros homens não resistiriam, permanecer mortificado. E sofrer, sofrer e suportar. Mas para isso eu havia me preparado por toda a minha vida.

            – Mais um pouco, e tudo estará consumado. E então teremos a vida inteira para vivermos. Juntos.

            Juntos e sem segredo algum, longe daqui. Nosso amor sempre teve de ser silenciado e secreto, algo que estava fora dos planos, mas que, meu Deus, era algo sem o qual eu já não podia viver, muito menos continuar com tudo aquilo. Esse amor era o que me dava mais força nos momentos de dúvida e por ele, apesar da súplica em seus olhos, eu continuaria com o que devia ser feito, com toda a humilhação que eu deveria passar, com toda a dor que seria infligida a mim e a meus familiares, a meus amigos, que me veriam ser preso, julgado, condenado, espancado, humilhado e, finalmente, morto. Pelo menos aos olhos do mundo.

            Mas naquele momento esqueci de todo o resto, de toda a humanidade a qual eu devia servir, e fizemos amor. Inexplicável. Indescritível. E eu nada podia falar sobre isso aos outros. Um homem santo não deve ter necessidades fisiológicas, assim deve ser. E, no entanto, era muito mais que isso, não era a carne, mas o espírito, a alma, a pureza, o amor. Quem era eu para falar de amor antes de conhecê-la?

            E, mesmo assim, eu não podia falar desse amor a ninguém.

            Momentos depois do fim jazíamos os dois, lado a lado, juntos, um só. O silêncio foi quebrado com uma pergunta:

            – Prometes que voltas para mim?

            – Prometo que, quando eu voltar, tu serás a primeira pessoa a me ver.