Encontro na praia

Eu tive mais um encontro com ela hoje. Foi em uma praia: a noite estava amena, o céu estrelado, o mar agitado. Noite perfeita para um encontro.

Não precisei esperar muito – ela sempre chega na hora marcada. É bem verdade que as nuvens atrasaram um pouco que ela se mostrasse, mas foi até mais bonito assim. Quando ela finalmente surgiu estava radiante, como uma noiva se mostrando aos poucos entre os véus, como o mistério da existência surgindo entre as brumas do desconhecido.

E assim ficamos algum tempo, namorando um ao outro. Perfeitos momentos de admiração.

Bem sei que ela não é só minha, mas amor não é possessivo. Saber disso só aumenta ainda mais a verdade que existe na beleza dela, na atração que ela exerce sobre os homens, os animais e as marés.

Linda Selene, minha paixão mais antiga, minha companheira mais duradoura.

O que é morto não envelhece

– Fernando?

A voz veio de muito longe, reverberando em seus ouvidos até finalmente ressoar com algum sentido em sua mente. Havia já muito tempo que não ouvia aquele nome. Virou-se e com alguma surpresa respondeu:

– Luiza! Nossa, como você está…

A palavra que lhe veio à cabeça de imediato foi velha, mas ele a conteve a tempo e prosseguiu:

– …elegante.

A senhora ainda ficou alguns segundos atônita enquanto ele sorria de leve como que saboreando aquele espanto.

– É você mesmo? Como isso é possível?

– Que nos encontremos aqui, agora? A vida ainda hoje me surpreende com esses pequenos acasos.

– Não, como é possível… Você! Como você pode estar tão jovem? A última vez que nos vimos você tinha… O que, uns quarenta anos? E agora mal aparenta ter trinta… Como isso é possível?

– Ah, o que é isso, bondade sua. Obrigado, mas são seus olhos…

O espanto inicial foi levemente obscurecido com alguma raiva.

– Eu estou velha mas ainda não estou senil. Você não precisa tripudiar de mim. É algum tipo de brincadeira? Você é filho, parente de Fernando?

Por alguns instantes ele olhou aquele rosto. Quantas rugas na pele que um dia havia sido tão suave ao seu toque. O olhar, tanto brilho havia ali antigamente, agora era somente um par de pedras opacas que mal mantinham a lembrança do que foram um dia. Os lábios! Quão doces eles foram e agora que repúdio lhe causavam.

O sorriso se foi e ele ficou sério, mas não o bastante. Mantinha alguma coisa irônica, indefinível, perdida em algum lugar do rosto indecifrável.

– Não estou tripudiando, nem é nenhuma brincadeira. Eu só não esperava te encontrar e acabei sendo jovial, sem intenção de te magoar.

Ela olhava espantada.

– Não pode ser você. É impossível.

– A escolha é sua, já que provavelmente nunca mais nos encontraremos de novo. Você pode sair daqui imaginando que sua mente lhe pregou uma peça, que você confundiu alguém mais jovem parecido com Fernando e que esse alguém resolveu brincar contigo. Talvez seja melhor e, afinal, não mudará nada.

– Você me chamou pelo meu nome e seus olhos… Seus olhos continuam os mesmos, não há mais como negar para mim mesma que é você.

– Certo. E o que você espera que eu te diga? Que eu explique como posso estar tão jovem, como os anos não passaram para mim? Eu não vou te dizer. Se você quer realmente saber, eu poderia. Poderia até mesmo fazer com que você rejuvenescesse, dividir contigo o que eu descobri.

Houve silêncio por um momento enquanto toda uma vida passava pela mente dele.

– Mas não vou. Considerando como você me abandonou anos atrás, não vou. Não quero.

– Eu não te abandonei, você que se tornou… Você nunca… Ah, esqueça. Você não entendeu na época, não fará diferença agora.

– Nisso você está certa, não fará diferença agora.

Ela ainda tentava organizar todos os fatos. Reencontrá-lo tanto tempo depois já era estranho, mas aquilo tornava tudo irreal. Mal conseguiu exclamar, na falta de palavras para expressar o turbilhão que sentia:

– Eu não acredito que você ainda guarde mágoa de tantas décadas atrás!

– E não guardo, querida. Nos encontrarmos aqui não foi minha intenção. Como eu disse, a vida ainda me surpreende com essas coincidências. Também não pretendia de forma alguma revirar lembranças tão antigas. Eu sempre evito cruzar com os rostos do passado. Quero dizer, os que ainda vivem, logicamente.

– Deve ser bem triste, não?

– O que? Ser eternamente jovem? Até agora, tenho me divertido bastante.

– Ver todos os que você conheceu, todos os que amou… morrerem.

– Ah, minha cara, você é tão velha quanto eu. Você viu a mesma porção de pessoas morrerem. Ou morremos ou vivemos para ver morrer, tanto as pessoas quanto os amores. A diferença é que eu sempre viverei. Você só me parece estar com alguma inveja.

– Se é o que você quer pensar, para mim tanto faz. Tive uma vida feliz e sei que a morte não pode estar muito longe, mas irei sabendo que aproveitei o que pude, que vivi plenamente.

– Se você diz, eu acredito em você. Eu, no entanto, prefiro continuar vivendo. E, veja, minha companhia chegou. Preciso ir.

Uma bela e jovem morena de vinte e poucos anos se aproximou e beijou-o.

– Oi, amor. Desculpa, eu demorei?

– Não, minha linda. Eu acabei de chegar.

Com um sorriso inocente, quase tolo, ela virou-se para a senhora e comentou:

– O Luiz sempre é pontual e eu sempre me atraso.

– Luiz?

– Sim, é o meu nome, respondeu ele com um sorriso. Desculpe-me, mas agora precisamos ir. Até mais.

Os dois já se distanciavam quando ela perguntou:

– Eu não te verei de novo, verei?

Ele virou-se e murmurou para que a outra não o ouvisse:

– Não, você não me verá mais, mas, quando chegar a hora, eu virei me despedir e lhe trarei flores.

Alimente os lobos

Um outro dia começa. É muito importante manter uma rotina: faz com que o trabalho se torne menos difícil do que é, mantém a cabeça ocupada nas ações e não por pensamentos demais que vagam por lugares ermos e sombrios. Acorde cedo, faça o desjejum, parta para o trabalho. Afinal, nem sempre é tão simples conseguir o que se precisa. A maior parte das vezes ainda há o que se fazer após do almoço.

Nessa época, então, de frio e neve, as coisas se complicam ainda mais. É preciso muito mais esforço para conseguir caça  o suficiente e, para piorar, o sol se põe mais cedo.

Coloco as armadilhas e tento também a sorte com a espingarda. Não consigo muita coisa, faço uma nova caçada pela tarde e depois percorro as armadilhas, retiro o que consegui. Não é muito, mas o bastante. Mais um dia se vai.

Ponho os animais que consegui em frente ao portão. O sol já se foi, a noite logo descerá sobre a terra. Apresso-me a atravessar os grandes muros que cercam minha moradia. A porta é de madeira maciça e forte, os blocos de pedra pesados.

Entro em casa e aguardo enquanto a escuridão se aproxima. Logo começo a ouvir os primeiros uivos, cada vez mais numerosos e próximos. Finalmente, como acontece todas as noites, estão à minha porta, uma enorme balbúrdia de grunhidos enquanto se alimentam do que deixei.

É importante mantê-los assim: alimentados. Somente dessa forma me deixam em paz, se satisfazem e retornam ao seu covil.

Uma voz se faz ouvir – vem lá de fora ou da minha mente? -, uma pergunta insistente: “até quando pensas que pode detê-los com migalhas?”

Espanto a voz para longe, retiro um livro da minha biblioteca, tento manter a mente ocupada com amenidades na grande solidão do meu castelo.

O cansaço começa a surgir, o sono vai crescendo, deito e durmo – sem paz de espírito, mas descanso meu corpo.

***

Novo dia, mesmos afazeres. Percebo-me cada vez mais infeliz com esse cotidiano, sentindo-me cada vez mais exausto em repetir a mesma tarefa, dia após dia. Tudo parece vazio e sem propósito e esse sentimento só faz crescer.

Mas não há tempo para pensar demais – os animais estão cada vez mais escassos, o trabalho para consegui-los cada vez maior. O frio cresceu, a neve aumentou. Tudo me dificulta.

Mal consigo a quantidade necessária para manter os lobos satisfeitos. Quando termino, estou exausto. Atravesso o antigo portão quase me arrastando já ouvindo os uivos ao longe.

Esta noite eles parecem ainda mais famintos, como se sentissem a dificuldade que foi conseguir esse alimento. Como se cheirassem no ar a minha fraqueza, o meu cansaço.

Entre o rosnar das feras, ouço de novo a voz.

“Não poderás resistir por muito tempo. É inútil.”

Pego um livro e começo a ler. Tento não dar atenção.

“Pensas que és forte para resistir? O tempo está se esgotando. Sabes que não pode fugir para sempre.”

As palavras em que passo os olhos não fazem mais sentido. Eu só ouço a voz.

“Somos fortes. Por que insistes nisso? O que pretendes? Onde pensas que chegarás?”

Não, não, não. Chega. Tento fechar os olhos, tranco-me em meu quarto, mas a voz permanece. Está dentro de mim.

“Desista. Pare de resistir.”

Uma bebida há de esquentar o meu frio, entorpecer minha mente um pouco para que eu esqueça. Desço as escadas e pego um vinho na minha velha adega. Ainda me sobraram alguns de tempos mais festivos. Bebo enquanto continuo tentando ler e manter a voz longe. Aos poucos ela se esvai, sinto-me mais forte, menos solitário no vazio que me cerca.

Termino minha garrafa. Por que não abrir outra? Fez-me sentir melhor, estou mais confiante e até levemente alegre.

Sem pensar demais, estou enchendo minha taça mais uma vez.

***

Abro os olhos com dificuldade. A cabeça dói e tudo ao redor parece girar. A minha boca está seca. Não lembro como vim deitar. Demoro alguns instantes até retomar completamente a consciência.

De repente, a realidade invade minha mente de uma só vez e dou um pulo da cama. Que horas são? O quanto eu dormi?

Olho pela janela e percebo o sol já alto. Já é meio-dia. Tento me apressar, mas meu corpo mal responde, a cabeça está pesada como uma pedra. Enfio alguma comida goela abaixo, bebo água numa tentativa infrutífera de me sentir melhor, mas o enjoo me consome.

Preciso correr para fora e tentar conseguir carne mas tudo me é extremamente difícil. Sinto um temor inexplicável dentro de mim, tudo me parece inútil, a vida um grande erro. Arrasto meu corpo como um peso, uma alma prisioneira em um cadáver. Não pareço caçar, mas sim ser a caça perseguida por algo muito maior e mais forte do que eu.

A busca é infrutífera, consigo quase nada. O tempo é pouco, o frio aumentou, minhas mãos tremem e não conseguem se manter firmes. Nas poucas armadilhas que consegui colocar, mais da metade não tinha nada, e as que tinham, somente pequenos animais.

O que tenho é bem menos do que costumo deixar nos outros dias. Coloco na porta e entro ainda enjoado. Fecho o portão e rezo para que seja o suficiente para manter as feras satisfeitas.

Ouço os uivos se aproximando. Eles parecem saber, parecem mais afoitos e agitados do que nunca. Sinto que eles já estão ao portão. O barulho que fazem é ensurdecedor.

Passam a arranhar a madeira, se debater, rosnar em fúria.

Ouço a voz. Não, por favor.

“Sabias o tempo todo que era inútil.”

Subo na escada junto ao muro para verificar o que acontece do lado de fora. Os lobos deixaram de arranhar a porta e começaram a se unir. Um com outro, dois se tornam um, e outro e mais outro até se tornarem um único ser monstruoso, de pé sobre duas pernas, metade lobo, metade humano.

Desço em pânico. Quando chego ao chão, a fera em um único salto atravessa o muro e desce à minha frente.

Os caninos são afiados, os dentes rugem em uma ira insana, os pelos eriçados. Um animal selvagem.

Petrificado de medo, olho em seus olhos. À minha frente não está um ser estranho: reconheço o meu próprio olhar.

***

Corro em liberdade pela neve uivando em direção ao vilarejo. Tenho pressa, preciso aplacar a minha velha vontade. Depois de tanto tempo, estou faminto.

Preciso colocar minhas garras em ancas frescas, sentir meus dentes em pele tenra, o sangue quente em minha garganta.

Por que haveria de evitar o que me faz pleno? Já há muito não sou mais o que era, não tenho mais a força de outrora, mas ainda tenho o antigo instinto primal. O vento frio sopra mas não aplaca o meu fogo. Ao inferno a minha alma, a minha  carne eu satisfarei.

Hoje à noite, matarei minha fome.

O Salto

Por tempos que eu já não sei precisar eu busquei minha evolução pessoal. Enquanto algumas pessoas procuram entender o que ocorre no exterior, eu sempre me importei mais com meu interior. Eu intentava principalmente me tornar um ser humano melhor, conseguir algumas das respostas que me queimavam no peito desde sempre, e acreditava que o que eu desejava encontraria dentro de mim. Bem, pelo menos o que eu poderia ter na limitação desse corpo, na prisão desse ego. Sabia bem que nunca resolveria a plenitude das minhas questões.

Por isso qual não foi minha surpresa ao receber uma mensagem vinda das distâncias mais longínquas do universo. Eu havia sido escolhido entre tantos outros seres humanos terrestres para ser transportado através da imensidão do espaço até um planeta mais evoluído.

Eles, assim me contaram, também vieram da Terra, eras atrás. Os mais evoluídos da nossa raça haviam escapado para outro lugar distante onde seguiram esse caminho de aprendizado. No entanto, decidiram continuar usando a Terra, seu antigo lar, como um local de estudo, um criadouro para novos habitantes que fizessem por merecer. Deixaram ensinamentos escondidos a serem aprendidos aos que realmente buscassem, aos que se mostrassem dignos de uma terra mais próspera e pacífica.

Mas por que eu, afinal? Por mais que eu tivesse conseguido alguma evolução, não me achava tão inteligente ou superior de forma alguma. A questão não era essa, me explicaram. Eles já tinham cultura e sabedoria o suficiente – poderia ser facilmente passado a mim. Não era isso que eles buscavam, mas pessoas que tivessem alcançado a iluminação, a pureza, a humildade. Uma pessoa pode estar plena de conhecimento e ainda assim ter o espírito corrompido. E isso não tinha nada a ver com inteligência ou cultura: estava ao alcance de todos os que dessem atenção aos sinais.

Muitos já haviam sido transportados ao longo da história humana, alguns completos anônimos, outros nem tanto.

Explicaram que eu seria transportado de forma quase instantânea para milhares de anos-luz de distância. Alguns segundos e eu teria feito o que chamaram de salto. Só havia um porém: esse intervalo que para mim seria um instante, na Terra seria um século. Não havia retorno. Mesmo que um dia eu desejasse voltar, todos que porventura eu tivesse conhecido estariam mortos.

Deram-me um tempo para pensar e decidir. Se eu desejasse partir, o salto seria feito em alguns dias, num lugar deserto. Se eu decidisse ficar, eu não teria recordações do incidente: minhas lembranças sobre isso seriam apagadas.

Eu não tinha muitos motivos para me preocupar. Meus pais já haviam falecido, eu não tinha filhos nem irmãos. Os familiares que ficaram eu não tinha contato. Os poucos amigos – colegas, deveria dizer? – que eu tive foram se perdendo com o tempo. Eu não simpatizava com ninguém em meu ambiente de trabalho, aliás, muito pelo contrário.

Só restava ela.

Ela, que eu já não via há tanto tempo – percebi que nem sabia mais quanto. Na grande solidão que foi seguir sem sua presença, os dias perderam o significado. Ainda assim, foi somente nela em quem pensei. Ela, que se afastou de mim depois de tantos anos juntos, depois de tantas juras e a crença em um amor eterno. Ela, que eu considerava ainda parte de mim mesmo que nunca mais tivesse me dirigido a palavra ou se interessado em saber como eu estava.

Nunca mais nos falamos – ela se afastou e eu respeitei – mas foi por ela que tentei cada vez mais ser um ser humano melhor. Sempre foi por ela que tentei evoluir. Acreditei que um dia ela voltaria e perceberia como eu havia lutado por isso, como eu era alguém completamente diferente e digno novamente de seu amor, de sua companhia.

Mas ela nunca retornou.

De que me adiantaria continuar nessa terra que já não me satisfazia, cercado por pessoas que já não me diziam nada? Eu aprendera a ser humilde, eu tinha renunciado à minha arrogância. Eu não era melhor do que ninguém, mas também já não tinha nada em comum com as pessoas tão ligadas a uma vida que já não era a minha. Eu seguia alienado em um mundo que me era indiferente. Ninguém mais compreendia o que eu sentia, ninguém podia ver o que eu via, ninguém nem ao menos se importava.

Será que perceberiam minha falta quando eu saltasse? Será que ela receberia a notícia do meu desaparecimento? Se preocuparia em saber o que foi feito de mim?

Verteria uma única lágrima que fosse por mim?

E de que me adiantava pensar nisso tudo? Nada mais existiria para mim.

Nada mais importava, afinal.

Dei o salto.

Inverno na Alma

            Os amigos diziam há muito que ele precisava sair, tentar se distrair, viver a vida. De tanto ouvir a mesma coisa, resolveu tentar, nem que fosse para pelo menos poder dizer que não tinha adiantado nada. Mal se colocou para fora, sentiu-se mal. Lá fora o frio era insuportável. O vento vinha cortante e parecia atravessar sua carne como uma faca afiada que lhe alcançava os ossos. Sentia o corpo todo tremer, a voz não lhe saía, os membros quase não lhe obedeciam, sentia-se congelando. Não pôde resistir por muito tempo, precisava voltar, precisava de seu abrigo. Correu de volta para casa, para sua segurança. Quando entrou ainda tiritava de frio, mas já se sentia melhor ao ver os objetos familiares. Fechou a janela e os olhos, enrolou-se num cobertor de poemas e acendeu a lareira das cartas que ela havia-lhe escrito. Agora sim, agora tudo era calor e aconchego, sentia o coração pulsando cada gota de sangue em seu corpo cansado. Sentia-se quente, quente como as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Não importava se ela já não existisse, as palavras tinham resistido. As palavras que ele tinha juntado por ela, as frases que ela havia feito por ele. Todas ali, vivas em suas mãos e ao alcance de seus olhos, refazendo cada momento que eles tiveram juntos. Como era bom o acalanto de suas lembranças comparado ao gélido dia de verão tropical que insistia em acontecer, incônscio de seu sofrimento. Nada mais lhe importava além das antigas palavras que tinham sido ditas e escritas.

            Lá fora, o frio era insuportável.

Clímax

            Em seus olhos vejo a vida, em seu corpo sinto o mundo, quando a possuo e a tenho junto a mim, quando me entrego, me perco e me acho em seus encantos. Desse amor tiro minha força, esse amor é tudo que eu preciso ter, toda explicação, toda a sabedoria.

            E, quando chega o clímax, sinto todo o universo em mim, em nós, que somos um só naquele momento que dura uma eternidade. A suprema comunhão, estou nela, estou em mim, estou em toda a parte. Sinto e não sinto, sou e não sou, estou presente em tudo e em nada no instante exato em que ambos chegamos onde tudo teve início e fim, sem início nem fim.

            Em uma dessas vezes, por uma única vez, fui ainda mais longe e pude ver o Criador. Ver sem ver, sentir sem sentir, algo além dos sentidos conhecidos. Estive diante Dele e senti que Ele sempre esteve em mim.

            Pude compreender que eu tinha direito a uma pergunta. Apenas uma, nada mais. Nada foi dito com sons, mas sentido, percebido por algo diferente de olhos e ouvidos. Porém, eu sabia, sentia em cada parte de meu ser, que havia um único segundo para mim. Logo tudo estaria consumado e eu voltaria aonde estava antes. Milhares de pensamentos passaram como um raio em minha mente, tantas dúvidas e questões, rodopiando como um furacão.

            Mas foi somente uma pergunta que saiu:

            – Por quê?

            Ao que me foi respondido:

            – Não sei; vos criei justamente para que me explicassem.