Sombras

– Meu amor, eu senti tanto a tua falta. Por quanto tempo? Já não sei. E que diferença pode fazer? O tempo perde o sentido quando se está em outra realidade. Por que demorou tanto?

– Eu não sei, mas eu me sinto tão sozinha agora. Tudo o que eu tinha chegou ao fim, eu me sinto abandonada por tudo, por todos, pelos meus amigos, procuro e não encontro, não vejo ninguém ao meu lado.

– Porque nunca estiveram, é simples.

– Em teus olhos eu vejo… Tu sempre soubes, não é? Sabia que terminaria assim.

– É fácil enxergar à distância, a visão se torna clara. E, ainda assim, tão impossível de alterar o que já parece marcado para acontecer.

– Fica comigo. Não me deixes sozinha. Eu preciso de ti. Eu preciso das tuas mãos, da tua companhia, eu não consigo mais ficar assim.

– Eu esperei tanto por este momento e é tão triste. É tarde demais, tu sabes disso, não sabes?

– Por quê? Não, nunca é tarde, sempre há tempo, sempre se pode quando se quer de verdade. Fica comigo. Tu queres, não quer? Por que não ficaria comigo?

– Ficarei contigo, sempre, assim como sempre ficaste comigo mesmo longe. Porém, da forma que tu queres que eu fique, não aqui, não agora, não mais, nunca mais. Visto de longe o tempo não existe, é uma ilusão, mas, ainda assim, ou por isso mesmo, agora é tarde demais.

E seus olhos desvaneciam como névoa enquanto o som das últimas palavras desaparecia na perfeição do silêncio, enquanto todo ele se apagava na grande imensidão ilusória do tempo, nos caminhos perdidos da memória, deixando apenas as lágrimas nos olhos dela.

Não haveria abraços porque não havia braços, nem mãos para o adeus.

Encontro na praia

Eu tive mais um encontro com ela hoje. Foi em uma praia: a noite estava amena, o céu estrelado, o mar agitado. Noite perfeita para um encontro.

Não precisei esperar muito – ela sempre chega na hora marcada. É bem verdade que as nuvens atrasaram um pouco que ela se mostrasse, mas foi até mais bonito assim. Quando ela finalmente surgiu estava radiante, como uma noiva se mostrando aos poucos entre os véus, como o mistério da existência surgindo entre as brumas do desconhecido.

E assim ficamos algum tempo, namorando um ao outro. Perfeitos momentos de admiração.

Bem sei que ela não é só minha, mas amor não é possessivo. Saber disso só aumenta ainda mais a verdade que existe na beleza dela, na atração que ela exerce sobre os homens, os animais e as marés.

Linda Selene, minha paixão mais antiga, minha companheira mais duradoura.

O que é morto não envelhece

– Fernando?

A voz veio de muito longe, reverberando em seus ouvidos até finalmente ressoar com algum sentido em sua mente. Havia já muito tempo que não ouvia aquele nome. Virou-se e com alguma surpresa respondeu:

– Luiza! Nossa, como você está…

A palavra que lhe veio à cabeça de imediato foi velha, mas ele a conteve a tempo e prosseguiu:

– …elegante.

A senhora ainda ficou alguns segundos atônita enquanto ele sorria de leve como que saboreando aquele espanto.

– É você mesmo? Como isso é possível?

– Que nos encontremos aqui, agora? A vida ainda hoje me surpreende com esses pequenos acasos.

– Não, como é possível… Você! Como você pode estar tão jovem? A última vez que nos vimos você tinha… O que, uns quarenta anos? E agora mal aparenta ter trinta… Como isso é possível?

– Ah, o que é isso, bondade sua. Obrigado, mas são seus olhos…

O espanto inicial foi levemente obscurecido com alguma raiva.

– Eu estou velha mas ainda não estou senil. Você não precisa tripudiar de mim. É algum tipo de brincadeira? Você é filho, parente de Fernando?

Por alguns instantes ele olhou aquele rosto. Quantas rugas na pele que um dia havia sido tão suave ao seu toque. O olhar, tanto brilho havia ali antigamente, agora era somente um par de pedras opacas que mal mantinham a lembrança do que foram um dia. Os lábios! Quão doces eles foram e agora que repúdio lhe causavam.

O sorriso se foi e ele ficou sério, mas não o bastante. Mantinha alguma coisa irônica, indefinível, perdida em algum lugar do rosto indecifrável.

– Não estou tripudiando, nem é nenhuma brincadeira. Eu só não esperava te encontrar e acabei sendo jovial, sem intenção de te magoar.

Ela olhava espantada.

– Não pode ser você. É impossível.

– A escolha é sua, já que provavelmente nunca mais nos encontraremos de novo. Você pode sair daqui imaginando que sua mente lhe pregou uma peça, que você confundiu alguém mais jovem parecido com Fernando e que esse alguém resolveu brincar contigo. Talvez seja melhor e, afinal, não mudará nada.

– Você me chamou pelo meu nome e seus olhos… Seus olhos continuam os mesmos, não há mais como negar para mim mesma que é você.

– Certo. E o que você espera que eu te diga? Que eu explique como posso estar tão jovem, como os anos não passaram para mim? Eu não vou te dizer. Se você quer realmente saber, eu poderia. Poderia até mesmo fazer com que você rejuvenescesse, dividir contigo o que eu descobri.

Houve silêncio por um momento enquanto toda uma vida passava pela mente dele.

– Mas não vou. Considerando como você me abandonou anos atrás, não vou. Não quero.

– Eu não te abandonei, você que se tornou… Você nunca… Ah, esqueça. Você não entendeu na época, não fará diferença agora.

– Nisso você está certa, não fará diferença agora.

Ela ainda tentava organizar todos os fatos. Reencontrá-lo tanto tempo depois já era estranho, mas aquilo tornava tudo irreal. Mal conseguiu exclamar, na falta de palavras para expressar o turbilhão que sentia:

– Eu não acredito que você ainda guarde mágoa de tantas décadas atrás!

– E não guardo, querida. Nos encontrarmos aqui não foi minha intenção. Como eu disse, a vida ainda me surpreende com essas coincidências. Também não pretendia de forma alguma revirar lembranças tão antigas. Eu sempre evito cruzar com os rostos do passado. Quero dizer, os que ainda vivem, logicamente.

– Deve ser bem triste, não?

– O que? Ser eternamente jovem? Até agora, tenho me divertido bastante.

– Ver todos os que você conheceu, todos os que amou… morrerem.

– Ah, minha cara, você é tão velha quanto eu. Você viu a mesma porção de pessoas morrerem. Ou morremos ou vivemos para ver morrer, tanto as pessoas quanto os amores. A diferença é que eu sempre viverei. Você só me parece estar com alguma inveja.

– Se é o que você quer pensar, para mim tanto faz. Tive uma vida feliz e sei que a morte não pode estar muito longe, mas irei sabendo que aproveitei o que pude, que vivi plenamente.

– Se você diz, eu acredito em você. Eu, no entanto, prefiro continuar vivendo. E, veja, minha companhia chegou. Preciso ir.

Uma bela e jovem morena de vinte e poucos anos se aproximou e beijou-o.

– Oi, amor. Desculpa, eu demorei?

– Não, minha linda. Eu acabei de chegar.

Com um sorriso inocente, quase tolo, ela virou-se para a senhora e comentou:

– O Luiz sempre é pontual e eu sempre me atraso.

– Luiz?

– Sim, é o meu nome, respondeu ele com um sorriso. Desculpe-me, mas agora precisamos ir. Até mais.

Os dois já se distanciavam quando ela perguntou:

– Eu não te verei de novo, verei?

Ele virou-se e murmurou para que a outra não o ouvisse:

– Não, você não me verá mais, mas, quando chegar a hora, eu virei me despedir e lhe trarei flores.

Alimente os lobos

Um outro dia começa. É muito importante manter uma rotina: faz com que o trabalho se torne menos difícil do que é, mantém a cabeça ocupada nas ações e não por pensamentos demais que vagam por lugares ermos e sombrios. Acorde cedo, faça o desjejum, parta para o trabalho. Afinal, nem sempre é tão simples conseguir o que se precisa. A maior parte das vezes ainda há o que se fazer após do almoço.

Nessa época, então, de frio e neve, as coisas se complicam ainda mais. É preciso muito mais esforço para conseguir caça  o suficiente e, para piorar, o sol se põe mais cedo.

Coloco as armadilhas e tento também a sorte com a espingarda. Não consigo muita coisa, faço uma nova caçada pela tarde e depois percorro as armadilhas, retiro o que consegui. Não é muito, mas o bastante. Mais um dia se vai.

Ponho os animais que consegui em frente ao portão. O sol já se foi, a noite logo descerá sobre a terra. Apresso-me a atravessar os grandes muros que cercam minha moradia. A porta é de madeira maciça e forte, os blocos de pedra pesados.

Entro em casa e aguardo enquanto a escuridão se aproxima. Logo começo a ouvir os primeiros uivos, cada vez mais numerosos e próximos. Finalmente, como acontece todas as noites, estão à minha porta, uma enorme balbúrdia de grunhidos enquanto se alimentam do que deixei.

É importante mantê-los assim: alimentados. Somente dessa forma me deixam em paz, se satisfazem e retornam ao seu covil.

Uma voz se faz ouvir – vem lá de fora ou da minha mente? -, uma pergunta insistente: “até quando pensas que pode detê-los com migalhas?”

Espanto a voz para longe, retiro um livro da minha biblioteca, tento manter a mente ocupada com amenidades na grande solidão do meu castelo.

O cansaço começa a surgir, o sono vai crescendo, deito e durmo – sem paz de espírito, mas descanso meu corpo.

***

Novo dia, mesmos afazeres. Percebo-me cada vez mais infeliz com esse cotidiano, sentindo-me cada vez mais exausto em repetir a mesma tarefa, dia após dia. Tudo parece vazio e sem propósito e esse sentimento só faz crescer.

Mas não há tempo para pensar demais – os animais estão cada vez mais escassos, o trabalho para consegui-los cada vez maior. O frio cresceu, a neve aumentou. Tudo me dificulta.

Mal consigo a quantidade necessária para manter os lobos satisfeitos. Quando termino, estou exausto. Atravesso o antigo portão quase me arrastando já ouvindo os uivos ao longe.

Esta noite eles parecem ainda mais famintos, como se sentissem a dificuldade que foi conseguir esse alimento. Como se cheirassem no ar a minha fraqueza, o meu cansaço.

Entre o rosnar das feras, ouço de novo a voz.

“Não poderás resistir por muito tempo. É inútil.”

Pego um livro e começo a ler. Tento não dar atenção.

“Pensas que és forte para resistir? O tempo está se esgotando. Sabes que não pode fugir para sempre.”

As palavras em que passo os olhos não fazem mais sentido. Eu só ouço a voz.

“Somos fortes. Por que insistes nisso? O que pretendes? Onde pensas que chegarás?”

Não, não, não. Chega. Tento fechar os olhos, tranco-me em meu quarto, mas a voz permanece. Está dentro de mim.

“Desista. Pare de resistir.”

Uma bebida há de esquentar o meu frio, entorpecer minha mente um pouco para que eu esqueça. Desço as escadas e pego um vinho na minha velha adega. Ainda me sobraram alguns de tempos mais festivos. Bebo enquanto continuo tentando ler e manter a voz longe. Aos poucos ela se esvai, sinto-me mais forte, menos solitário no vazio que me cerca.

Termino minha garrafa. Por que não abrir outra? Fez-me sentir melhor, estou mais confiante e até levemente alegre.

Sem pensar demais, estou enchendo minha taça mais uma vez.

***

Abro os olhos com dificuldade. A cabeça dói e tudo ao redor parece girar. A minha boca está seca. Não lembro como vim deitar. Demoro alguns instantes até retomar completamente a consciência.

De repente, a realidade invade minha mente de uma só vez e dou um pulo da cama. Que horas são? O quanto eu dormi?

Olho pela janela e percebo o sol já alto. Já é meio-dia. Tento me apressar, mas meu corpo mal responde, a cabeça está pesada como uma pedra. Enfio alguma comida goela abaixo, bebo água numa tentativa infrutífera de me sentir melhor, mas o enjoo me consome.

Preciso correr para fora e tentar conseguir carne mas tudo me é extremamente difícil. Sinto um temor inexplicável dentro de mim, tudo me parece inútil, a vida um grande erro. Arrasto meu corpo como um peso, uma alma prisioneira em um cadáver. Não pareço caçar, mas sim ser a caça perseguida por algo muito maior e mais forte do que eu.

A busca é infrutífera, consigo quase nada. O tempo é pouco, o frio aumentou, minhas mãos tremem e não conseguem se manter firmes. Nas poucas armadilhas que consegui colocar, mais da metade não tinha nada, e as que tinham, somente pequenos animais.

O que tenho é bem menos do que costumo deixar nos outros dias. Coloco na porta e entro ainda enjoado. Fecho o portão e rezo para que seja o suficiente para manter as feras satisfeitas.

Ouço os uivos se aproximando. Eles parecem saber, parecem mais afoitos e agitados do que nunca. Sinto que eles já estão ao portão. O barulho que fazem é ensurdecedor.

Passam a arranhar a madeira, se debater, rosnar em fúria.

Ouço a voz. Não, por favor.

“Sabias o tempo todo que era inútil.”

Subo na escada junto ao muro para verificar o que acontece do lado de fora. Os lobos deixaram de arranhar a porta e começaram a se unir. Um com outro, dois se tornam um, e outro e mais outro até se tornarem um único ser monstruoso, de pé sobre duas pernas, metade lobo, metade humano.

Desço em pânico. Quando chego ao chão, a fera em um único salto atravessa o muro e desce à minha frente.

Os caninos são afiados, os dentes rugem em uma ira insana, os pelos eriçados. Um animal selvagem.

Petrificado de medo, olho em seus olhos. À minha frente não está um ser estranho: reconheço o meu próprio olhar.

***

Corro em liberdade pela neve uivando em direção ao vilarejo. Tenho pressa, preciso aplacar a minha velha vontade. Depois de tanto tempo, estou faminto.

Preciso colocar minhas garras em ancas frescas, sentir meus dentes em pele tenra, o sangue quente em minha garganta.

Por que haveria de evitar o que me faz pleno? Já há muito não sou mais o que era, não tenho mais a força de outrora, mas ainda tenho o antigo instinto primal. O vento frio sopra mas não aplaca o meu fogo. Ao inferno a minha alma, a minha  carne eu satisfarei.

Hoje à noite, matarei minha fome.

O Salto

Por tempos que eu já não sei precisar eu busquei minha evolução pessoal. Enquanto algumas pessoas procuram entender o que ocorre no exterior, eu sempre me importei mais com meu interior. Eu intentava principalmente me tornar um ser humano melhor, conseguir algumas das respostas que me queimavam no peito desde sempre, e acreditava que o que eu desejava encontraria dentro de mim. Bem, pelo menos o que eu poderia ter na limitação desse corpo, na prisão desse ego. Sabia bem que nunca resolveria a plenitude das minhas questões.

Por isso qual não foi minha surpresa ao receber uma mensagem vinda das distâncias mais longínquas do universo. Eu havia sido escolhido entre tantos outros seres humanos terrestres para ser transportado através da imensidão do espaço até um planeta mais evoluído.

Eles, assim me contaram, também vieram da Terra, eras atrás. Os mais evoluídos da nossa raça haviam escapado para outro lugar distante onde seguiram esse caminho de aprendizado. No entanto, decidiram continuar usando a Terra, seu antigo lar, como um local de estudo, um criadouro para novos habitantes que fizessem por merecer. Deixaram ensinamentos escondidos a serem aprendidos aos que realmente buscassem, aos que se mostrassem dignos de uma terra mais próspera e pacífica.

Mas por que eu, afinal? Por mais que eu tivesse conseguido alguma evolução, não me achava tão inteligente ou superior de forma alguma. A questão não era essa, me explicaram. Eles já tinham cultura e sabedoria o suficiente – poderia ser facilmente passado a mim. Não era isso que eles buscavam, mas pessoas que tivessem alcançado a iluminação, a pureza, a humildade. Uma pessoa pode estar plena de conhecimento e ainda assim ter o espírito corrompido. E isso não tinha nada a ver com inteligência ou cultura: estava ao alcance de todos os que dessem atenção aos sinais.

Muitos já haviam sido transportados ao longo da história humana, alguns completos anônimos, outros nem tanto.

Explicaram que eu seria transportado de forma quase instantânea para milhares de anos-luz de distância. Alguns segundos e eu teria feito o que chamaram de salto. Só havia um porém: esse intervalo que para mim seria um instante, na Terra seria um século. Não havia retorno. Mesmo que um dia eu desejasse voltar, todos que porventura eu tivesse conhecido estariam mortos.

Deram-me um tempo para pensar e decidir. Se eu desejasse partir, o salto seria feito em alguns dias, num lugar deserto. Se eu decidisse ficar, eu não teria recordações do incidente: minhas lembranças sobre isso seriam apagadas.

Eu não tinha muitos motivos para me preocupar. Meus pais já haviam falecido, eu não tinha filhos nem irmãos. Os familiares que ficaram eu não tinha contato. Os poucos amigos – colegas, deveria dizer? – que eu tive foram se perdendo com o tempo. Eu não simpatizava com ninguém em meu ambiente de trabalho, aliás, muito pelo contrário.

Só restava ela.

Ela, que eu já não via há tanto tempo – percebi que nem sabia mais quanto. Na grande solidão que foi seguir sem sua presença, os dias perderam o significado. Ainda assim, foi somente nela em quem pensei. Ela, que se afastou de mim depois de tantos anos juntos, depois de tantas juras e a crença em um amor eterno. Ela, que eu considerava ainda parte de mim mesmo que nunca mais tivesse me dirigido a palavra ou se interessado em saber como eu estava.

Nunca mais nos falamos – ela se afastou e eu respeitei – mas foi por ela que tentei cada vez mais ser um ser humano melhor. Sempre foi por ela que tentei evoluir. Acreditei que um dia ela voltaria e perceberia como eu havia lutado por isso, como eu era alguém completamente diferente e digno novamente de seu amor, de sua companhia.

Mas ela nunca retornou.

De que me adiantaria continuar nessa terra que já não me satisfazia, cercado por pessoas que já não me diziam nada? Eu aprendera a ser humilde, eu tinha renunciado à minha arrogância. Eu não era melhor do que ninguém, mas também já não tinha nada em comum com as pessoas tão ligadas a uma vida que já não era a minha. Eu seguia alienado em um mundo que me era indiferente. Ninguém mais compreendia o que eu sentia, ninguém podia ver o que eu via, ninguém nem ao menos se importava.

Será que perceberiam minha falta quando eu saltasse? Será que ela receberia a notícia do meu desaparecimento? Se preocuparia em saber o que foi feito de mim?

Verteria uma única lágrima que fosse por mim?

E de que me adiantava pensar nisso tudo? Nada mais existiria para mim.

Nada mais importava, afinal.

Dei o salto.

Sobre sexo e palmas numa ilha do Atlântico

Contam antigos relatos encontrados em um manuscrito – e também lendas colhidas entre a população mais velha – sobre uma ilha perdida no oceano Atlântico. Tal ilha teria sido descoberta em algum ponto das navegações por uma comitiva de europeus, mas não se sabe ao certo qual foi a época exata. Sabe-se que, ao chegarem lá, encontraram um povo de índios que, como cabe aos índios, andavam totalmente nus no calor tropical da terra. Mas o que mais os espantou não foi esse fato, já amplamente divulgado à época, mas sim a fornicação que ocorria por todas as partes do lugar, em todas as modalidades possíveis. Aonde quer que se fosse, havia pelo menos um homem possuindo uma mulher, no chão, no mato, nas árvores. Mas não era só isso, encontravam-se também homens sodomizando mulheres ou mesmo outros homens, mulheres tocando suas semelhantes, felações de todos os tipos e até mesmo orgias, nas mais variadas formas e quantidades, e isso em plena luz do dia, por toda a parte, sem pudor algum. Havia até pessoas utilizando-se do onanismo, e isso se explicava por que, entre eles, era uma grande falta de educação ter intercurso sexual com alguém e não levá-lo ao orgasmo. Sendo assim, quando queriam simplesmente satisfazer a si mesmos de forma rápida, preferiam se masturbar.

Era uma vergonha completa e o padre que veio com o navio ficou horrorizado. O chefe da tribo veio ter com eles, agindo de forma muito amistosa e oferecendo inclusive algumas nativas – elas tinham ficado um tanto quanto excitadas pela novidade daquelas peles brancas.

Um ultraje, pensava o sacerdote – embora alguns dos marujos estivessem interessados na oferta –, e passou a pregar entre eles o evangelho, dizendo que tudo aquilo era indecoroso e que todos iriam para o inferno se insistissem naqueles pecados (a língua que os nativos usavam era a mesma dos índios do continente, e como o padre já havia catequizado alguns por lá, sabia, portanto, como se comunicar).

Ao que os nativos perguntavam, sem entender, que mal poderia haver em ter e dar prazer uns aos outros.

O padre respondia que Deus abominava tudo aquilo e que castigaria todos.

Mas como poderia ser, perguntavam os índios, se sempre fizeram tudo aquilo e Deus nunca enviou um sinal de que era errado? Além do mais, e quanto a todos os seus honoráveis antepassados, como eles podiam saber que era pecado se nunca alguém disse isso a eles? Estariam todos eles agora sendo castigados?

O padre disse que sim, que assim era. Disse que todos precisavam se arrepender e se penitenciar. Os índios não entenderam bem e acharam que aquele homem não deveria ser bom da cabeça. Estando eles felizes e satisfeitos, por que deveriam se arrepender e sofrer? Sendo assim, ignoraram os ensinamentos e continuaram a copular alegres.

O padre ficou irado, e começou a bater palmas para que os índios lhe dessem atenção, o que acabou por ocorrer, mas não da forma como ele esperava. Todos olharam indignados para ele, e o chefe ordenou que ele parasse com aquele ato ímpio.

O padre replicou que não entendia o que havia de errado em bater uma das mãos contra a outra.

O chefe respondeu que aquela era a coisa mais suja que um habitante dali poderia fazer. Era uma falta de respeito aos ouvidos dos outros, uma ofensa à pele das mãos, uma agressão completa.

O padre disse que eram todos loucos e partiu com a tripulação – com parte dela, pelo menos, já que alguns preferiram ficar, pois tinham encontrado algumas belas índias por lá.

Meses depois, uma nova expedição chegou, trazendo mais homens com armas. O padre e o capitão da tropa postaram-se perante a tribo e exigiram que eles se rendessem e deixassem de pecar. O chefe da tribo respondeu que, se fosse para deixar de serem felizes, eles preferiam a morte.

O padre então ordenou que a tropa batesse palmas, ao que todos obedeceram. Os índios ficaram irados, gritando que parassem. A guerra era iminente, as armas estavam sendo empunhadas em ambos os lados. Só que, indiferente a tudo, um dos europeus enamorou-se de uma das mais belas índias que ali estava, e ela dele. Notando que a batalha acabaria com a chance de terem um ao outro, abraçaram-se e tiveram uma ideia.

Quando a luta estava para começar, os dois começaram a fazer amor bem no meio do campo de batalha. A tropa europeia ficou espantada, um dos seus cometendo tal pecado, ali, frente a todos, enquanto os índios riam-se. Foi quando o casal passou a bater palmas enquanto gemia. Foi a vez então dos índios assustarem-se em ver uma de suas companheiras cometendo tal iniquidade. Assim ficaram, ambos os lados, perplexos; mas, vendo os dois executando os supostos pecados de cada uma das partes, acabaram por perceber quão ridículo era proibir ou brigar por aquilo. Sendo assim, as índias passaram a agarrar os soldados, que batiam palmas para sua beleza. O padre quedava-se sozinho gritando contra tudo aquilo, até que foi agarrado por quatro índias. A princípio tentou lutar, mas, por fim, não conseguiu resistir aos encantos daquelas belas morenas.

Conta-se então que a vida voltou ao normal e que os forasteiros integraram-se ao modo de vida do lugar.

Já outra versão diz que esse final não passa de uma lenda criada posteriormente e que, na verdade, a população da ilha foi dizimada pelo exército que chegara – ou por outro que foi enviado tempos depois. Nesse ponto as opiniões diferem, e nesse caso os pertencentes à primeira tropa também foram mortos juntos com o povo do lugar. Essa versão hoje em dia é mais aceita, visto que tal ilha nunca foi encontrada e porque, afinal, seria bem mais próprio ao espírito humano.