Sinto

Dói. Sempre dói.
Sim, sinto dor.
Sinto dor porque estou vivo.
Sinto. Vivo.
Estar vivo é sentir.
Sinto tanto pois me sinto tão vivo.
Mais do que jamais me senti.
Sinto prazer. E sinto dor.
Sinto a dor em todos os seres que existem.
Tão forte que choro às vezes.
Não é fácil, mas é mais real do que não sentir.
Mais real do que jamais foi.
Mais real do que sentir alegria somente.
Do que querer sentir prazer o tempo todo.
E me sinto só.
Porque ninguém quer se sentir vivo.
Sentir a vida.
(É uma ilusão, afinal?)
Porque não é fácil se sentir assim.
Porque não.
Por que?
Porque.
Sinto.
Sim.

A Sombra

Ó, quão triste e cansado fico aqui:
à minha dama estou sempre a servir
como mero escravo sobre este solo
e mesmo assim quase nunca a consolo.

Nós dois feridos, o sangue infeliz
manchou nosso tronco, podre a raiz
e já tinha o tempo jovem fugido,
de grisalho minha barba tingido.


Livremente inspirado em poema de William Blake.

Derradeiro Amor

Vem, meu grande amor,
Acabar com minhas noites de solidão,
Com as tristes lembranças que carrego.
Eu, que tantas amei, serei somente teu
Quando assim desejares.

Vem, meu derradeiro amor,
Pousar teu beijo triste em mim.
Sei que não posso querer-te já,
Mas não posso não querer-te nunca.
Vem quando quiseres,
Quando for a hora…
Mesmo que eu nunca vá saber.

Vem, amante última!
Amor mais puro pois
Ama-me sem nada pedir.
Amante plena!
Amas a todos sem distinção.
Vem tocar-me com teus dedos frios!
Já não espero mais nada.
Já sinto teu gosto, ainda te temo,
Mas te amo – vem!
Vem que não quero mais nada.

Tripalium

A cada manhã a verdade eu encaro:
eu bem sei que não passo de um escravo.
Em meu corpo não estala a velha chibata
mas dia a dia a minha alma se mata;
e por dia permitem um pouco de sol,
remédio vendem se me sinto só,
um banho, um sono, um sonho em minha cela
sem luxo, eu pago tão caro por ela.
O ponto é um capitão sempre tão exato:
me caça no mato enquanto eu me mato
e minhas vontades eu afogo e embaralho
com custo e faço das tripas trabalho;
mesmo que me deixem brincar de vez em quando,
as correntes estão sempre apertando.

Ninfa tão bela, ninfa tão leve

Ninfa tão bela, ninfa tão leve,
sendo tua vida ainda tão breve,
tão sem cuidado, como te atreves
a vir tão perto dos meus reveses?

Ninfa tão linda, boca tão doce,
como eu queria que puro eu fosse
e assim perfeito cada momento
e livre sempre de sofrimento.

Velho sátiro eu sou,
maturado na dor;
que procuras aqui
antes que vás partir?

Ninfa tão livre pelo ar revolta,
da noite és filha, ninfa tão solta,
pertence à terra, o fogo consome;
com teus abraços mata-me a fome.

Ninfa tão jovem, inconsequente,
rosa em botão, desejo das gentes,
sossega a sede, acalma-me a mente
em tua cascata de águas tão quentes.

Velho fauno que sou,
calejado no amor;
que procuras enfim
assim junto de mim?

Panegírico

Preciso em minha vida algo que enfim me toque
trazendo ao meu ouvido o chamado dos bosques;
quando em pânico eu solto um grito de socorro
e rumo ao que é profano em liberdade eu corro.

Dos portões da alvorada ouço o som de uma flauta
trazendo à minha mente a memória que falta.
A sua força, deus grande, o meu corpo sacode,
extático, estou vivo, homem, fera, deus, bode.

Qual insano me entrego ao meu eu mais primal:
sou um homem acima, um voraz animal,
sou filho desta terra, o universo em mim,
tão consciente da vida, um início em seu fim.

Entre as rochas escuto o roçar de meus cascos
esmagando o que é santo, entregue ao meu penhasco:
irascível volúpia! Eu sou metade bicho
e lascivo me rendo a todos meus caprichos.

Minha mais nobre arte, o ser mais primitivo,
ao prazer sempre atento e de nada me privo.
Seja esquecida a culpa, assim como o pecado,
um falso ensinamento, um tempo que é passado.

Hermético segredo ensinado ao rebanho
quando ardendo no fogo em luxúria me banho;
só um pastor existe aos livres e aos loucos:
a louca liberdade almejada por poucos.

Perdido de desejo, insaciável falo,
em riste qual espada eu sigo a empunhá-lo
pela úmida gruta onde se encontra a fonte
de todo ser que existe hoje, amanhã ou ontem.

Já que há tanta floresta e a colher tantas pinhas
por tudo isso desejo as ninfas todas minhas
e livres e de todo escolhido por elas
e bem saboreando essa vida que é bela.

Em minha arca de alma a música mais pura
e a poesia que encanta a nascer da natura.
Sou um pastor de verso a compor por instinto
o som e a voz de tudo o que em meu peito sinto.

Com amorais eu sigo embriagado em bom vinho,
grato a gozar a vida em êxtase caminho.
Dentro da minha mente eu sinto o despertar:
livre sonho desperto a quem o procurar.

Sou semente propícia em um solo fecundo,
pai e filho de tudo existente no mundo.
Desde o início do tempo eu sou muitos, sou vários,
para mim não existe e nunca houve um calvário.

Pois grande sou, primeiro e último entre os meus
imortal potestade, inabalável deus.
De um espaço ou do tempo eu nunca fui cativo,
uma era em um segundo, eternamente vivo.

Como eu insisto em criar?

Como eu insisto em criar?
Se em um mundo que me parte
em cacos e despreza a arte
eu mal consigo ter ar.

Enforcado em meu crachá,
vendendo meu tempo escasso;
um pouco de vida eu caço,
a alma tão longe do lar.

Por que ter tão duras penas?
Quero o mar à minha porta,
o sol, talvez um mecenas,

vinho, arte e amor! Importa
ser livre, eu queria apenas
viver minha vida torta.