Temporais

Temporais tempos atrás
Mas já faz tanto tempo
Tentei tanto algo mais
Tanto faz, que haja paz

Pelo vento sopra o tempo
Que eu tento não lembrar
Só fez se acumular
Preservado em cristais
Que já não falam mais

Que haja sol, hoje só
Tudo retorna ao pó

Poslúdio

Falta-me a justa força e sinto o ar espesso,
o peso no meu corpo agora que entardeço.
Ninfas, eu me despeço em um último adeus:
vos tornais uma sombra em velhos sonhos meus.

Enfim chegou a noite e apareceu a lua.
Que vejo ali tão doce e que já se insinua?
Ah, toda essa beleza eu imagino nua!
Vai, coração, transborda agora a paixão tua!


Inspirado por “L’après-midi d’un faune” de Stéphane Mallarmé.

Confiteor

Queimando por inteiro em ira veemente
repleto de amargura exortarei à mente.
Do barro transformado em tão leve elemento,
sou semelhante à folha a brincar com o vento.

Tal qual ensina o sábio, o certo é colocar
sobre uma firme rocha a base do seu lar;
eu, tolo, me comparo a um rio sempre a descer
e que em margem alguma há de permanecer.

Sou um barco sem comando a vagar solto ao mar
e pelo ar sou errante ave, o vento a levar;
não me prende corrente, inútil cadeados,
busco quem me assemelha, imorais, depravados.

Manter-me em gravidade é para mim agravo,
diversão é doçura igual a mel em favo.
O que Vênus ordena, em meu coração arde,
e ela jamais encontra um lar entre os covardes.

Sigo o largo caminho igual à juventude,
envolvo-me em pecado e esqueço o que é virtude,
redenção não me importa, a volúpia eu caço,
morto estou em minha alma, a carne eu satisfaço.

Amor da minha vida, eu te imploro boa sorte,
morto por doce crime, eu morro a grata morte;
à vista feminina o meu peito é ardente
e as que tocar não posso eu as possuo na mente.

Impossível tarefa é vencer a natura,
ver tamanha beleza e manter mente pura;
quem é jovem não vive a seguir lei tão dura,
a fraqueza da carne ainda espera a cura.

Quem não se queima e arde ao fogo ser lançado?
Quem na Lapa ficando, ao pudor seria honrado,
onde Vênus a dedo escolhe jovens caças,
com o olhar enfeitiça e prende com suas graças?

Se Hipólito viesse hoje à Lapa e ficasse,
não seria o mesmo quando a noite terminasse.
Todo caminho leva a Vênus bem-amada;
de todos, não há arco à Verdade sagrada.

Capítulo seguinte, a taberna lembrar:
em tempo algum desprezo e não vou desprezar
até que eu tenha em volta arcanjos imortais
cantando para o morto ao céu: “descanse em paz”.

Expirar na taberna é a minha intenção
para que vinho eu tenha ao alcance da mão;
então anjos em coro alegres cantarão:
“que seja Deus atento ao grande beberrão.”

Pelo copo, a minha alma em fulgor logo acende,
em néctar embebido, o coração transcende.
Para mim é mais doce o vinho que embriaga
que aquele que comunga o padre junto à água.

Tanto poeta evita à turba se juntar
e escolhe tão discreto um claustro como lar,
busca, anseia, trabalha e evita descansar,
e ao final nunca uma obra eterna irá mostrar.

Jejuante e abstinente, um coro de poetas,
evitando a disputa e as gentes indiscretas;
e para ser criada uma obra que não morra
morre se devotando ao labor na masmorra.

A natureza cede um ofício a cada um:
nenhuma vez consigo escrever em jejum;
quando estou jejuante, até criança é mais forte.
A fome junto à sede odeio como a morte.

A natureza cede a cada qual um dom:
quando versos componho, eu bebo um vinho bom,
o mais puro que tenha o barril do local;
tal vinho sempre gera abundância verbal.

Tal versos eu produzo igual vinho que eu bebo,
só quando eu me alimento inspiração recebo;
com fome não escrevo algo que satisfaça,
até Ovídio eu venço após algumas taças.

O espírito da poesia a mim jamais é dado,
a não ser que já esteja eu bem alimentado;
quando em minha cabeça está Baco reinando,
em mim irrompe Febo e vou melhor versando.

Eis-me aqui revelando a minha perversão,
da qual tão tristemente eu sofro a acusação;
mas nenhum deles pode a si mesmo acusar,
mesmo que desejando este mundo gozar.

Eu digo a quem me julga, enfim, se sou culpado,
como Deus bem manteve em sua lei ordenado,
sem pena jogue a pedra às costas do curvado,
quem cúmplice não seja em sua alma do pecado.

Falei contra mim mesmo o que sabia de errado,
vomitei o veneno em mim acumulado.
Vida velha eu desprezo, uma nova me move;
o homem enxerga a face, a alma somente Jove.

Já estimo a virtude, o vício evitado,
no espírito renasço, ânimo renovado;
como um recém-nascido, o leite novo eu bebo,
minha futilidade agora eu apercebo.

Humildemente peço, absolve o penitente,
que tua piedade seja ao pecador clemente!
Dá-me tua penitência às culpas confessadas:
ordene e eu obedeço, a alma gratificada.

Poupa quem o obedece, até o rei das feras,
e esquece a própria ira aos que são da sua esfera;
faça da mesma forma a quem couber o cargo:
quem se abstém do doce, é por demais amargo.


Livremente traduzido e adaptado de poema do Arquipoeta, poeta anônimo medieval.

À sombra de uma murta

Por que eu deveria só prender-me a ti,
ó, adorável murta que eu escolhi?
Amores livres jamais poderão
serem presos ao que cresce do chão.

Ó, quão limitados se sempre aqui
só sob sua sombra eu poderia sorrir!
Como inútil semente sobre este solo
se só com minha murta eu me consolo.

Por que gastarmos tanto amor em vão
mantendo-o sob um pesado grilhão?
Por que sermos presos a suspirar
com tanta coisa que volta do ar?

A liberdade que sempre se quis
cortando a antiga e tão velha raiz
antes que o tempo jovem vá fugir
tal como uma folha seca a cair.

Por que deverias prender-te só a mim,
ó, minha adorável flor de jasmim?
Amores livres jamais poderão
serem presos ao que cresce do chão.


Livremente traduzido e adaptado de poema de William Blake.