Tenho saudade de lugares distantes que talvez eu nunca mais vá voltar. Mas por que lamentar? Assim também é com tempos que passei e que nunca mais vou ter. Pessoas que me foram tão caras e que não mais vão estar aqui. Até mesmo épocas que não vivi, que nostalgia sinto pelo que representam em mim!

Eu mesmo! Eu mesmo não posso mais ter aquele que fui um dia.

O Poço

Eu caminho em direção ao poço. Eu vim até ele por minha vontade e sou de novo atraído para sua escuridão. As pequenas distrações só enganam a minha mente por breves momentos, eu as sopro para longe e ele está ali, vivo, pulsando, me chamando de volta.

Eu paro em sua beira e o encaro, longamente. Ele é escuro, profundo, atemorizante. Quanto mais eu o olho mais eu me aprofundo em direção a mim mesmo. Ele está cheio de lembranças partidas, memórias perdidas riscadas em suas paredes, antigos traumas esquecidos. Cheio de sentimentos confusos e contraditórios que lutam e se debatem qual animais cegos buscando a luz. Eu vejo o caos. Eu sou o caos. Eu tenho medo, eu sinto frio.

Eu vejo raiva e medo, possessividade, carência. Eu sinto o ódio vivo encravado em meus neurônios. Eu vejo a tristeza, a melancolia. Eu sou uma grande sombra.

Minha insegurança é do tamanho da minha arrogância.

Eu não quero que mais ninguém esteja aqui, preso a mim.

Eu vejo séculos de dores impressos em meus genes. Eu vejo as grades de minha prisão dentro de outra prisão criada pela ilusão.

Eu vejo vastidões de realidades que se contradizem, eu vejo padrões que se repetem infinitamente em espelhos que se refletem, eu vejo labirintos de caminhos que não vão dar em lugar nenhum. Eu sinto o paradoxo da existência em cada uma das minhas células.

Eu quero destruir tudo isso, esmagar meu ego até às cinzas.

Eu quero me explodir em lágrimas salgadas como os oceanos que vão secar, eu quero vomitar em litros o fel que me contamina a alma, eu quero voltar à sujeira de onde eu vim.

Sou fraco, falho e efêmero.

Eu ouço um milhão de vozes que gritam na escuridão onde eu vivo.

Tento me segurar à arte, às palavras, aos sons.

Os sons são apenas ondas que vibram, as palavras são símbolos falsos, correntes que me prendem e que não significam nada. Mesmo agora eu só inutilmente luto com algo que não posso definir. Eu quero ir além, acima, depois e só consigo me afundar mais e mais na lama de onde vem toda a vida e a morte.

Eu vejo a morte, eu a sinto. Eu a busco com voracidade.

Estamos irremediavelmente sozinhos, condenados à solidão. Eu abri uma porta em mim que não pode mais ser fechada. Talvez eu tenha ido fundo demais, longe demais.

Eu sinto o vazio, o nada, e ele me reconforta.

Eu só consigo pensar em ir, em me deixar ir. Pode não ser ainda a hora, ou pode ser daqui a um segundo.

Mas então eu prometo tentar me erguer daqui, mudar, melhorar. Buscar sentido da grande confusão que eu percebo em mim e no meu entorno.

Afinal, pessoas me amam. Pessoas precisam de mim e me querem junto a elas, pessoas que me acham bom.

As pessoas não estão vendo o que eu vejo.