Trifolium Incarnatum

  1. Tristode
  2. Eu Vou Guardar as Estrelas
  3. Metade
  4. Se Por Aí Andar (Scarborough Fair)
  5. Estrelinha
  6. Fátima
  7. Trevo e Carmesim
  8. Alumbramemento
  9. Dear God (Bless Your Children Tonight)
  10. Diadomar (2003)
  11. Flores em Azul, Alecrim, Jasmim
  12. Penélope
  13. Nossos Dias de Sol
  14. Eu Só Queria
  15. Pedaço de Mim
  16. O Teu Silêncio
  17. Velha Guanabara
  18. Liberdade Ainda que Tarde (2018)
  19. Eu Vou Guardar os Meus Sonhos
  20. O Vento no Rosto

Gravado entre agosto e outubro de 2018, exceto a base para a faixa instrumental de abertura “Tristode”, gravada em 2014.

Todas as composições por Leo Lago, exceto:
Metade: Adriana Calcanhotto;
Se por aí andar (Scarborough Fair): música em domínio público, arranjos e letra por Leo Lago adaptados da canção tradicional medieval inglesa;
Estrelinha: música em domínio público, arranjos e letra por Leo Lago adaptados de “Twinkle twinkle little star” que por sua vez utiliza a melodia tradicional francesa “Ah! vous dirai-je, maman”;
Diadomar (2003): música em domínio público, arranjos e letra adaptados da música tradicional “Marinheiro só”;
Flores em azul, alecrim, jasmim: Leo Lago, com citações à canção tradicional “Alecrim Dourado”;
Pedaço de mim: Chico Buarque.


Letras:

1. Tristode

Instrumental

2. Eu vou guardar as estrelas

Eu vou guardar as estrelas
Que você deixou pra trás
Eu as vejo se apagar
Toda noite sem sair do lugar
Eu vou guardar as estrelas
Que você deixou pra trás
Eu vou encontrar
A minha paz

Eu vou guardar as estrelas
Que você deixou pra trás
Eu as vejo se apagar
Toda noite sem sair do lugar
Eu vou guardar as estrelas
Que você deixou pra trás
Eu vou encontrar
De novo
A minha paz

3. Metade

Cover Adriana Calcanhotto

4. Se Por Aí Andar (Scarborough Fair)

Se estiver indo por aí andar
Salsa, sálvia, tomilho, alecrim
Me lembre a alguém que por lá foi morar
Pois ela foi o grande amor pra mim

Farei-lhe um vestido de cambraia escura
Salsa, sálvia, tomilho, alecrim
Sem usar agulha e nenhuma costura
Se eu tiver de novo seu amor pra mim

Lavarei num poço seco no estio
Salsa, sálvia, tomilho, alecrim
Que água não teve nem chuva caiu
Se eu tiver de novo seu amor pra mim

Acharei pra nós um acre de terra
Salsa, sálvia, tomilho, alecrim
Entre a espuma do mar e a onda que quebra
Se eu tiver de novo seu amor pra mim

Impossíveis tarefas, você há de dizer
Salsa, sálvia, tomilho, alecrim
Não mais que a esperança que tentei manter
De que eu teria seu amor no fim

Impossíveis tarefas, você há de dizer
Salsa, sálvia, tomilho, alecrim
Não mais impossíveis, eu vou responder
Do que aquelas que ela quis de mim

5. Estrelinha

Brilha, brilha, estrelinha
Queria qu’inda fosses minha
Foste tudo, outros dias,
Na minha vida tão vazia

Brilha, brilha, estrelinha
Triste esperança ao fim do dia
Sei que nunca irás voltar
Da distância onde tu estás

Sou viajante no escuro
Procurando um porto seguro
Já não sei onde caminhar
Sem tua luz a me guiar

Quando enfim o meu sol se por
Para onde irá todo o amor?
Brilhe sua luz até o fim
Quando eu voltar lá de onde eu vim

Brilha, brilha, estrelinha
Enquanto eu procuro a minha paz
Mesmo que já não sejas minha
Seja feliz onde tu estás

Brilha, brilha, estrelinha
Mesmo que já não sejas minha
Brilha, brilha, estrelinha
Mesmo que já não sejas minha

6. Fátima

Venho aqui te pedir perdão
Alivia esse peso do meu coração

Por que você não olhou pelo nosso amor?
Por que não abriu meus olhos por favor? (pelo seu favor)
Mas não tenho o direito de questionar
Só vim aqui para procurar
Em seu doce olhar
Um pouco de paz
E nada mais

7. Trevo e Carmesim

Foi há muito tempo atrás
Ela perguntou pra mim
Você sabe o que é
Trevo e carmesim?

Era tudo tão novo
Trevo e carmesim
Era tudo tão puro
Trevo e carmesim

Queria de novo
Trevo e carmesim

Queria de novo
Tudo simples assim
De novo e de novo
Trevo e carmesim
E nunca um fim

8. Alumbramemento

Entendi o alumbramento do Bandeira
Naquele eterno momento na beira
Da Lagoa
A vida era boa

Olho nossa foto na Quinta
Havia tanto sonho em nosso olhar
Um segundo e tudo passa
Tudo deve passar

Queria ter
Tudo aquilo que eu tive outra vez

9. Dear God (Bless Your Children Tonight)

Dear god 
Bless your children tonight

Dear god 
Bless my love tonight

Dear god 
Bless my heart tonight 

(This rainy and lonely night
This long and lonely, lonely night)

10. Diadomar (2003)

Ô cavaleiro, cavaleiro
Cavaleiro só
Quem te ensinou a amar?
Foi teu coração partido
ou foi a paixão a queimar?

Ô cavaleiro, cavaleiro
Cavaleiro só
Quem te ensinou a amar?
Uma garota de olhar doce
como a noite de luar

Ô cavaleiro, cavaleiro
Cavaleiro só
Quem te ensinou a amar?
Uma garota de olhar negro
como a noite lá no mar

Ô cavaleiro, cavaleiro
Cavaleiro só
Quem te ensinou a amar?
Lembrar dela inda hoje
faz meus olhos marejar

Eu não sou daqui
Eu não tenho amor
Quem me dera partir
E esquecer a dor

11. Flores em Azul, Alecrim, Jasmim

Ah, que sonho eu tive
Com flores em azul
Como era no início
Antes do precipício

Alecrim, alecrim dourado
Que nasceu no campo
Sem ser semeado

Ah, que sonho eu tive
Essa noite
Tudo estava em paz
Como era antes

Foi meu amor 
Que me disse assim
Que a flor do campo
É o alecrim

Você bem que podia colocar pra mim
Uma fita azul no nosso jasmim

Nosso jasmim-manga para onde foi?
Para onde foi como o nosso amor?

Ai de mim, alecrim dourado 
Que morreu tão triste 
Antes do esperado

Ah, que sonho eu tive
Mas eu acordei

12. Penélope

Eu sonho um sonho, veja você
Um sonho lindo de morrer
Você vinha correndo me abraçar
Com seus cachinhos voando no ar
Sonho como seria você a sorrir
Me desculpe por você não vir
Mas nem sempre a vida é
Aquilo que a gente quer
Talvez seja melhor assim
A humanidade é tão ruim
Talvez seja melhor assim
Eu também sou ruim

O que tem acontecido
Em meus olhos e ouvidos?

Lay lay Penny lay
In my arms

Lay lay Penny lay
In my dreams

13. Nossos Dias de Sol

Um dia achei velhas cartas de amor
Para a minha avó, do meu avô
E eram palavras tão belas
Retratos de outras eras

Para onde vai todo amor
Depois que não somos mais?
Quando tudo se for
Que diferença faz?

Você se lembra, querida
Quando éramos dois
Pela frente a vida
Sem pensar no depois?

Você se lembra ainda
dos nossos dias de sol?
A lua bem-vinda,
a praia e um farol

Para onde foi todo amor
Já que não somos mais?
Será que nada restou
Dos nossos dias de paz?

Quando tudo passar
Que diferença fará?
Quando tudo passar…

Se lembre de mim
Pelo que tive de bem
Quando tudo for nada enfim
Quando eu não for mais ninguém

Um dia hão de encontrar
Minhas velhas cartas de amor
E ouvirem essa canção
Provando que algo restou

14. Eu Só Queria

Eu não queria falar dos erros que cometi
E dos erros que você também cometeu
O que importa agora se foi você ou fui eu?
Eu só queria poder estar aí

Eu queria poder te abraçar 
Como se só existisse o agora
Porque no fim
É tudo o que existe
É tudo o que temos

Eu só queria poder te abraçar
E ficar em silêncio
Pelo tudo que fomos
Por tudo o que tivemos

Eu só queria poder te ver sorrir
Eu só queria poder te ver sorrir
Eu só queria poder te ver

Eu só queria poder ter o seu perdão
E que você entendesse que também você
Tem tantos motivos para pedir o meu
Mas não importa mais se foi você ou fui eu

Eu queria poder te abraçar 
Como se só existisse o agora
Porque no fim
É tudo o que existe
É tudo o que temos

Eu só queria poder te abraçar
E ficar em silêncio
Pelo tudo que fomos
Por tudo o que tivemos

Eu só queria poder te ver sorrir
Eu só queria poder te ver sorrir
Eu só queria poder te ver

Mas o que posso fazer
Se tem que ser assim
Mas o que posso fazer
Seja feliz longe de mim

15. Pedaço de Mim

Cover Chico Buarque

16. O Teu Silêncio

O teu silêncio é uma espada
Cravada em meu coração
É estar preso a nada
Um corpo morto sem opção

O teu silêncio é covarde
Chama apagada que arde
Aqui dentro, contra a vontade
Liberdade, ainda que tarde

Mas quem sou eu para julgar?
Sou folha morta solta no ar

Será que mereço o castigo?
Nem meu passado é amigo
Os sonhos que tivemos um dia a amar
Castelos de areia na beira do mar

O resto é silêncio

17. Velha Guanabara

Velha Guanabara, quisera eu ter 
As tuas águas de outros tempos
Tu me conhecestes, eu inda puro
Sou hoje tão sujo quanto tu

Eu vejo o céu e o sol a se pôr
E as tuas vagas, vagam como eu
A lua reflete em teu espelho
Espelha a tristeza que há em mim

Eu não preciso mais de amigos
Aprendi a viver a solidão
Eu não tenho mais ninguém
Eu nunca tive

Vejo as aves que mergulham
E peixes que ainda nadam
(Um dia vi golfinhos, 
mas eram dias de sonho)

Ainda existe vida em ti
Apesar de toda a podridão
Assim como no meu coração
Assim como no meu coração

Bela Guanabara, quisera agora
Zarpar em tuas águas
Para a paz que está 
Para a paz que está ali, tão perto 

Lembro minha infância quando em ti 
Uma hora era a eternidade
Hoje minha vida parece ter ido
Em um segundo

Triste Guanabara, já tivestes 
Teus dias melhores que agora
Como eu também já tive os meus
Como eu também já tive os meus

18. Liberdade Ainda que Tarde (2018)

A paz que está 
Onde eu me escondo

A noite tinha sido doce
E a noite tinha sido doce
Em paz comigo, em paz com ela
As estrelas no céu e no céu da boca
E tinha a noite lá sido doce
E tinha a noite lá sido doce

A paz que está 
Onde eu me escondo
Mas você escolheu
Justo o mesmo dia que eu

Na manhã seguinte
Estávamos tão perto um do outro
Mas nem sentimos
Quais são as probabilidades?
Qual é a possibilidade?
Eu passei – você não viu
Achei simbólico pois assim 
Foram os últimos anos

Eu passei – você não viu
Melhor assim, talvez
Eu não saberia como agir

Era abril
E em casa abri
Cinco anos antes do esperado
E não houve nada especial
Nenhum sinal no céu
Nenhum distúrbio no equilíbrio do universo
Eu era só um homem

O que fazer quando se está meio morto?
Olhar o céu e abrir um velho vinho do Porto

Nenhuma voz trouxe no vento um lamento
O grande Pã é morto
O grande Pã é morto

19. Eu Vou Guardar os Meus Sonhos

Eu vou guardar os meus sonhos
E as minhas ilusões
É um pouco triste
É um tanto amargo
Talvez o melhor esteja 
Para sempre no passado
Tudo parece falso
Aqui dentro o que trago?

Eu vou buscar as estrelas
Feliz em tê-las
Eu vou buscar as estrelas
Feliz em tê-las

Talvez seja eu que pense demais 
Lembre demais 
De coisas passadas.
Talvez seja bobagem. 
Deixa tudo como está
Como um livro que termina de repente
Melancólico, bruscamente, tristemente.

Eu vou buscar as estrelas
Feliz em tê-las (Eu nunca quis te machucar)
Eu vou buscar as estrelas
Feliz em tê-las (Eu nunca quis te machucar)

Eu vou guardar minhas esperanças
No final, amargo é o gosto
Mas eu ainda tenho
O vento no rosto

20. O Vento no Rosto

Feche os olhos e curta
O vento no rosto
Nada mais importa
A vida é curta
Curta
Aproveite o gosto
Abre a porta e deixe 
O sol entrar
O som do mar
O vento soprar
A luz do luar
É só o que importa
O vento no rosto

Panegírico

Preciso em minha vida algo que enfim me toque
trazendo ao meu ouvido o chamado dos bosques;
quando em pânico eu solto um grito de socorro
e rumo ao que é profano em liberdade eu corro.

Dos portões da alvorada ouço o som de uma flauta
trazendo à minha mente a memória que falta.
A sua força, deus grande, o meu corpo sacode,
extático, estou vivo, homem, fera, deus, bode.

Qual insano me entrego ao meu eu mais primal:
sou um homem acima, um voraz animal,
sou filho desta terra, o universo em mim,
tão consciente da vida, um início em seu fim.

Entre as rochas escuto o roçar de meus cascos
esmagando o que é santo, entregue ao meu penhasco:
irascível volúpia! Eu sou metade bicho
e lascivo me rendo a todos meus caprichos.

Minha mais nobre arte, o ser mais primitivo,
ao prazer sempre atento e de nada me privo.
Seja esquecida a culpa, assim como o pecado,
um falso ensinamento, um tempo que é passado.

Hermético segredo ensinado ao rebanho
quando ardendo no fogo em luxúria me banho;
só um pastor existe aos livres e aos loucos:
a louca liberdade almejada por poucos.

Perdido de desejo, insaciável falo,
em riste qual espada eu sigo a empunhá-lo
pela úmida gruta onde se encontra a fonte
de todo ser que existe hoje, amanhã ou ontem.

Já que há tanta floresta e a colher tantas pinhas
por tudo isso desejo as ninfas todas minhas
e livres e de todo escolhido por elas
e bem saboreando essa vida que é bela.

Em minha arca de alma a música mais pura
e a poesia que encanta a nascer da natura.
Sou um pastor de verso a compor por instinto
o som e a voz de tudo o que em meu peito sinto.

Com amorais eu sigo embriagado em bom vinho,
grato a gozar a vida em êxtase caminho.
Dentro da minha mente eu sinto o despertar:
livre sonho desperto a quem o procurar.

Sou semente propícia em um solo fecundo,
pai e filho de tudo existente no mundo.
Desde o início do tempo eu sou muitos, sou vários,
para mim não existe e nunca houve um calvário.

Pois grande sou, primeiro e último entre os meus
imortal potestade, inabalável deus.
De um espaço ou do tempo eu nunca fui cativo,
uma era em um segundo, eternamente vivo.

Hino a Pã

Vibra com lasciva leve luz,
ó homem, afã!
A saltar da noite que conduz
a Pã! Io, Pã!
Io, Pã! Io, Pã! Vem por sobre o mar
da Sicília e da Arcádia a flutuar!
Vem qual Baco, com faunos, leopardos,
ninfas, sátiros em teu resguardo,
num asno branco, do mar sem fim
a mim, a mim,
vem com Apolo, com veste lisa
(tão pastora quanto pitonisa),
vem com Ártemis, em seda brava,
tua coxa branca, Deus belo, lava
ao luar do bosque, em marmóreo monte,
marcada manhã da âmbar fonte!
Põe o roxo da apaixonada prece
no santuário carmim, laço que aquece,
a alma que espanta nos olhos de mar
ao ver tua luxúria a lacrimejar
no bosque enredado, a haste retorcida
da árvore viva que é espírito e vida
e cérebro e corpo – do mar sem fim,
(Io, Pã! Io, Pã!)
deus ou demônio, vem a mim, a mim,
meu homem! Afã!
Vem com trombetas soando finas
sobre a colina!
Vem com tambor a rufar potente
pela nascente!
Vem com flautas soprando do escuro!
Não estou maduro?
Eu que esbravejo e balanço e brigo
com ar sem ramos a dar abrigo
ao meu corpo, farto do vazio,
forte qual fera e da áspide o fio –
Vem! Tenho sido
entorpecido
com a demoníaca libido.
Passa a espada ao grilhão que exaspera,
ó, tudo devora, tudo gera;
Mostra-me o símbolo do Olho Aberto,
da coxa áspera o sinal ereto
e o verbo do insano e do secreto,
ó, Pã! Io, Pã!
Io, Pã! Io, Pã, Pã! Pã, Pã! Pã,
sou um dos teus:
faz como queres qual grande deus,
ó, Pã! Io, Pã!
Io, Pã! Io, Pã, Pã! Tão consciente
eu estou no aperto da serpente.
Da águia, bico e garras devastam;
deuses se afastam:
as feras vêm, io, Pã! Eu me torno
morto no corno
pelo Unicórnio.
Eu sou Pã! Io, Pã! Io, Pã, Pã! Pã!
Teu companheiro, homem, afã,
bode em teu bando, sou deus, dourado,
carne em teu osso, flor no cajado.
Com cascos de aço as rochas eu roço
de solstício certo a equinócio.
Então rio e rapto e rasgo e repito
eternamente, mundo infinito,
manequim, moça, Ménade, afã,
no poder de Pã.
Io, Pã! Io, Pã, Pã! Pã! Io, Pã!


Traduzido do original em inglês “Hymn to Pan” de Aleister Crowley.